Os Medici: a grande família

Como os banqueiros Medici transformaram Florença, uma das mais tradicionais repúblicas da Itália, em seu domínio pessoal – e ajudaram a criar o esplendor do Renascimento

Reinaldo José Lopes | 20/07/2009 11h43

Em 1434, o banqueiro quarentão Cosimo de Medici fez uma entrada exuberante em Florença. Queria mostrar que estava de volta à sua cidade, motivo de infortúnio para seus inimigos, que seriam banidos. Começava ali o principado dos Medici, a grande família burguesa, patrona das artes e das letras, que comandou Florença e depois a Toscana até 1737, com breves intervalos. Cosimo havia passado um ano exilado em Veneza, acusado de tentar instaurar um governo tirânico. Mas a maioria ignorava essas suspeitas, porque as ruas ficaram lotadas de gente festejando seu retorno. “Raramente um cidadão voltando em triunfo de uma vitória foi recebido por seu país com tantas demonstrações de júbilo. Todos o saudavam como benfeitor do povo e Pai da Pátria”, escreveu Nicolau Maquiavel, político e intelectual florentino.

Maquiavel, que chegou a ser preso e torturado a mando dos descendentes de Cosimo, antes de se dedicar a escrever sobre o banqueiro, sabia perfeitamente que aquela recepção calorosa tinha marcado o começo do fim para o governo republicano em Florença. Devagarzinho, usando seus vastos recursos financeiros para apadrinhar a classe média nascente e se aliar aos poderosos, dentro e fora da Itália, os Medici deixaram de ser homens de negócios e viraram uma dinastia.

As outras grandes famílias de Florença até espernearam, voltando a expulsar os netos de Cosimo da cidade mais de uma vez. Mas só adiaram o inevitável: o domínio dos Medici durou quase 300 anos e moldou boa parte da Itália renascentista. De certo modo, os Medici fundaram a primeira grande instituição financeira multinacional do planeta e foram um bocado hábeis em usar o poder econômico para mandar e desmandar na política, na arte e até na religião. Um modelo que, afinal, está na base de quase todos os Estados modernos do Ocidente.

Por baixo dos panos

Embora pioneiros nesse tipo de articulação política e ideológica, os Medici não foram um caso isolado na Itália do Renascimento. “O fenômeno, na verdade, é comum nessa época. O que diferencia os Medici talvez seja o método relativamente não-violento de ascensão ao poder, através do qual eles foram erodindo, de forma muito lenta e contínua, as instituições republicanas de Florença”, avalia o historiador Manfredi Piccolomini, professor da Universidade da Cidade de Nova York e diretor do Medici Archive Project, que estuda a documentação deixada pela família, boa parte inédita. De certa maneira, Cosimo e companhia começaram como “zebras” da política florentina. A família, originalmente ligada à fabricação e ao comércio de tecidos, não era nem a mais rica nem a mais influente de Florença. Alguns dos Medici caíram na besteira de apoiar, no fim do século 14, a chamada Revolta dos Ciompi, cujo objetivo era dar direitos políticos aos que trabalhavam na manufatura da lã. A revolta foi suprimida, mas o envolvimento provocou o isolamento da família das relações de poder na cidade por décadas.

Nessa época, segundo Piccolomini, as repúblicas italianas tinham um regime baseado nos chamados checks and balances (restrições e contrapesos). “É uma herança da tradição política romana, cujo principal objetivo é impedir que qualquer pessoa obtenha o poder supremo”, diz. O mando era loteado entre os membros das guildas, corporações profissionais que reuniam banqueiros, negociantes, donos de manufaturas e artesãos, afirma Rita de Cássia Biason, professora de Ciência Política da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Franca.

Em tese, todo integrante de guilda com mais de 30 anos e sem dívidas podia ser eleito, por sorteio, para cargos públicos como a signoria, principal magistratura, com nove vagas. Mas só um quarto dos postos era ocupado pelas guildas menores, da classe média baixa. Ou seja, na prática, o regime era uma oligarquia comandada pelos ricos. Nesse sistema, até formar partidos políticos era proibido.

Abertamente, os Medici não se arriscavam a traçar alianças, mas, por baixo dos panos, Giovanni di Bicci, pai de Cosimo, usou o banco recém-fundado da família para forjar uma rede internacional de contatos. E também casou seus parentes de ambos os sexos com membros de famílias mais pobres, mas poderosas. Cosimo continuou a política, oferecendo empréstimos para cidadãos endividados, de forma que, quando fossem eleitos, apoiassem os interesses dos Medici. “Era uma rede informal, mas muito eficaz, de clientelismo”, escreve o historiador britânico J.R. Hale em Florence and the Medici (“Florença e os Medici”, inédito no Brasil).

A reação não tardou. Famílias aristocráticas conseguiram engendrar o exílio de Cosimo, mas o tiro saiu pela culatra, porque elas também tentaram um expurgo dos aliados do banqueiro que revoltou a população. A insatisfação dos florentinos abriu caminho para o retorno triunfal de Cosimo. Oficialmente, pouca coisa mudou na república, mas o banqueiro virou a eminência parda por trás de quase todas as decisões governamentais, além de ser responsável pela política externa.

Nesse ponto, o banco foi um instrumento importante, diz Biason. “O relacionamento com outros Estados europeus se construiu por meio das casas bancárias nos principais centros comerciais do continente: Londres, Nápoles, Colônia, Genebra, Lion, Roma, Avignon, Bruges, Antuérpia, Veneza, entre outras.” Os Medici davam um jeitinho de ter pessoas favoráveis a seus interesses no governo, manipulando os nomes que eram colocados nas borse, os sacos de onde eram sorteados os ocupantes dos cargos públicos.

Arte e gastança

A aprovação pública era tão grande que ninguém se opôs, quando esse poder de influência na cidade passou para o filho de Cosimo, Piero (que viveu apenas mais cinco anos após a morte do pai), e, logo depois, para Lorenzo, neto do Pai da Pátria. Atualmente conhecido como “o Magnífico”, Lorenzo levou ao auge a primeira fase do governo dos Medici em Florença, em 1469. Culto, interessado em filosofia, poesia e nas demais artes, ele também era um diplomata nato. Trouxe os melhores artistas da época para Florença e fortaleceu a economia local. Piccolomini diz que descobertas recentes nos arquivos mostram as boas relações da família, nessa época, com a comunidade judaica. “Eles atraíram ativamente comerciantes e banqueiros judeus para Florença.”

Mas casa de ferreiro, espeto de pau. A fortuna dos banqueiros Medici tinha se tornado tão lendária na Europa que todo mundo esperava os gastos mais extravagantes deles – inclusive os aliados de Florença, que adquiriram a mania de contrair (e não pagar) empréstimos, a fundo perdido. Para não perder prestígio, Lorenzo manteve a gastança. O banco acabou falindo e desaparecendo em 1494, dois anos depois da morte do Magnífico.

A aristocracia de Florença finalmente se cansou de ser manipulada pela família e tentou assassinar Lorenzo e seu irmão Giuliano, em 1478. O segundo morreu, e o primeiro sobreviveu para reprimir com violência os rebeldes. Mas, assim que Piero, filho do Magnífico, assumiu o poder, os inimigos aproveitaram um descuido seu – uma desastrada negociação territorial com a França – para declarar um novo exílio da famiglia, em 1494.

Nossa pessoa

A coisa não ia ficar assim, porém. Um filho de Lorenzo e um filho de Giuliano eram cardeais e começaram a mover o vasto arsenal de dinheiro e aliados da Igreja renascentista contra a república restaurada, representada pela velha aristocracia das guildas e, em menor proporção, da classe média. Em 1512, Florença foi derrotada por um exército papal e teve de aceitar Giovanni, o filho do Magnífico, como chefe de Estado informal. Um ano depois, ele foi eleito papa Leão X.

De repente, tanto os Estados papais quanto Florença tinham se tornado um feudo dos Medici, se não no papel, ao menos de fato. “Ser papa era estar à frente de um dos Estados mais fortes da Itália. Fonte de mais poder e também instrumento de manutenção da condição de senhores de Florença”, afirma Carlo Gabriel Pancera, professor de Filosofia Política da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste). Por isso, o domínio dos Medici parecia assegurado quando Giulio, o outro cardeal da dinastia, tornou-se o papa Clemente VII.

Uma última chance para os republicanos de Florença veio em 1527. A quebra da aliança entre o papa e o comandante do Sacro Império Romano-Germânico, Carlos V, levou à captura e ao saque de Roma pelas forças imperiais. Mas a situação não durou muito, e Alessandro, bisneto do Magnífico, foi empossado como duque de Florença – a primeira vez que o domínio da cidade pela famiglia era associado a um título de nobreza. Assassinado, o duque não deixou herdeiros legítimos, mas um obscuro Medici também chamado Cosimo, descendente do irmão do Cosimo “Pai da Pátria”, imediatamente tomou seu posto no governo (como Cosimo I). Uma vez no poder, revelou-se durão e excelente administrador, conquistando a cidade de Siena e unificando toda a região em torno de Florença no chamado Grão-Ducado da Toscana.

Cosimo I não tinha a menor paciência para os vestígios republicanos que ainda resistiam em seu domínio. Discutindo o esboço de uma pintura que retratava a captura de Siena, observou ao pintor Giorgio Vasari: “Os conselheiros que você colocou em torno de nossa pessoa [destaque para o plural majestático], quando você representa nossas deliberações sobre o ataque a Siena, não são em nada necessários, uma vez que tomamos todas essas decisões sozinhos. Você pode preencher o lugar deles com personagens representando o Silêncio e outras Virtudes”. O estilo autoritário deu tão certo que os Medici só perderam o poder, em Florença e na Toscana, quando morreu o último membro da dinastia, Gian Gastone, em 1737. O que sobrou da famiglia? As obras de arte financiadas por seu dinheiro e seu gênio, que ainda fazem de Florença uma das cidades mais belas da Europa.

Longa é a arte, tão breve a vida
O Renascimento foi o legado mais duradouro desses banqueiros

Todos os ícones da arte do Renascimento – Donatello, Fra Angelico, Michelangelo, Leonardo da Vinci, Boticelli, Rafael, além de cientistas como Galileu Galilei e Evangelista Torricelli (dois dos pais da Física moderna) – foram, em algum momento da vida, favorecidos pelo mecenato dos Medici. Só essa lista já seria ampla o suficiente, levando-nos do começo do século 15 ao fim do século 16, uma das fases mais extraordinárias da história da arte. Seja em Florença, como governantes, seja em Roma, como papas, os Medici encomendaram obras de importância vital para a cultura do Ocidente. “É claro que, em parte, esse apoio às artes era uma forma de exibir poder econômico. Mas também uma maneira de mostrar que, com os Medici, Florença abandonava totalmente o passado e se voltava para um futuro brilhante”, afirma o especialista italiano Manfredi Piccolomini. Alguns, aliás, eram artistas de talento, como Lorenzo, o Magnífico, considerado excelente poeta, e Leão X, músico. O Magnífico foi um dos fundadores da Academia Platônica de Florença, grupo de estudos que incluía até refugiados de Constantinopla, então recém-conquistada pelos turcos. O próprio Nicolau Maquiavel, antes inimigo político da famiglia, buscou a atenção dos Medici. O livro O Príncipe é dedicado a Lorenzo, neto do Magnífico.

Igreja no bolso
Os papas da família fizeram política, mas cometeram erros

A decisão de Lorenzo, o Magnífico, de fazer seu filho Giovanni (o do meio) cardeal, alçado ao posto de papa Leão X, em 1513, alinhou a Igreja no combate às forças que se opunham aos Medici, em Florença. E fez da Igreja uma vocação política na família. Mas a passagem dos Medici pelo papado foi marcada por dois desastres: a rebelião do monge alemão Martinho Lutero contra o catolicismo e a transformação da Inglaterra num país protestante. “Muita gente criticou Leão X por participar de um baile de máscaras em Roma, enquanto Lutero explicava sua posição contra o papado diante do imperador Carlos V, em 1521”, escreve J.R. Hale em seu livro Florence and the Medici. O papa excomungou Lutero, mas não deteve a Reforma. Noutro erro grave de avaliação, deu ao rei inglês Henrique VIII, o mesmo que iria romper com a Igreja Católica, o título de Defensor da Fé, porque o monarca escreveu um livro atacando Lutero. Pois foi Clemente VII, o segundo Medici a virar papa, que recusou a anulação do casamento do rei – que criou, então, a Igreja da Inglaterra. A carreira dos Medici no papado chegou a um fim melancólico no século 17, com a eleição de Leão XI. O “papa lampo”, ou papa-relâmpago, morreu apenas um mês depois de indicado ao posto.

Saiba mais

LIVROS

Florence and the Medici, J.R. Hale, Sterling USA, 2001

Clássico sobre a família e a cidade de Florença, que dá destaque às transformações políticas e sociais trazidas pelo governo da dinastia.

Abril Sangrento: Florença e o Complô contra os Medici, Lauro Martines, Imago, 2003

A tentativa de assassinar Lorenzo de Medici e a perseguição política que se seguiu ao ataque.

 

 

http://guiadoestudante.abril.com.br/estudar/historia/medici-grande-familia-485434.shtml

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O olhar de Leonardo Da Vinci

Ele turbinou a renascença e, de quebra, inventou um mundo que só nasceria 5 séculos depois de sua morte. Conheça o verdadeiro código de Da Vinci

por Texto Thereza Venturolli

A cena acontece em Milão, Itália, numa madrugada de 1489: na bancada do necrotério de um hospital, jaz um corpo cuja pele fora totalmente retirada, deixando à mostra os músculos, nervos e parte do esqueleto. Baldes, bacias, panos e instrumentos de corte sujos de sangue e outros fluidos corporais estão espalhados pelo chão da sala mal iluminada. Ao lado da bancada, um homem de 40 anos lança um último olhar para o cadáver esfolado e para a folha de papel com a série de ilustrações que acabou de desenhar. Sorri, satisfeito com o resultado. Apesar de ter feito tudo com pressa (para que o corpo não começasse a se decompor na cara dele), conseguiu terminar ilustrações inéditas, que mostram feixes de músculos e tendões se entrelaçando nos ossos dos ombros, braços, peito e pescoço. Em vários ângulos. Antes de guardar o desenho, o homem faz uma última anotação ao pé da folha: “Este conhecimento é tão necessário ao desenhista quanto é para o gramático saber a origem das palavras”.

Essa não era a primeira nem a última vez que Leonardo da Vinci faria uma dissecação humana. Ao longo da vida, ele contabilizaria mais de 30 madrugadas de vigília na companhia do que ele próprio chamou de “apavorantes corpos esquartejados”. Ainda assim, a vontade de conhecer o corpo humano até a última entranha superava qualquer calafrio. Não se tratava de uma curiosidade mórbida. Leonardo entendia que a anatomia, tanto quanto a geometria, era peça fundamental da pintura. Ele acreditava que, para representar a realidade com exatidão, era preciso observá-la com rigor científico – numa época em que a ciência propriamente dita ainda nem existia, diga-se. E observar foi o que Da Vinci fez de melhor. Graças à capacidade de aprender a ver, o mestre renascentista adquiriu um conhecimento profundo da natureza. E, com seu talento, deixou para a posteridade alguns dos maiores legados artísticos e científicos da história.

Da ciência à arte(e vice-versa)

Leonardo di Ser Piero da Vinci nasceu em 1452, no vilarejo de Anchiano, do lado de fora dos muros do castelo da então República de Florença, na Itália. Filho ilegítimo de uma mendiga e de um escrivão respeitado na elite florentina, foi criado pelo pai, que teve sensibilidade para identificar os excepcio-nais dons artísticos do garoto e recursos para desenvolvê-los.

Ainda adolescente, Leonardo foi enviado para trabalhar como aprendiz no estúdio do grande desenhista Andrea del Verrochio. E o garoto de Anchiano impressionou desde o começo – conta a lenda que, ao desenhar um anjo num dos quadros de Verrochio, Leonardo demonstrou ser tão melhor que o mestre que este desistiu de pintar de uma vez por todas. Verdade ou não, o fato é que se tratava do lugar ideal para a formação de um jovem talento da pintura. O estúdio de um artista na Florença no século 15 funcionava como uma oficina, onde o profissional orientava uma equipe de iniciantes na execução de obras por encomenda.

Se o espaço era propício, o tempo não ficava atrás. Quando Da Vinci tinha 1 ano de idade, os turco-otomanos tomaram Constantinopla, afugentando pensadores e artistas em enxame para o rico norte da Itália. Eles chegavam carregados de manuscritos sobre a geometria e a arte na Grécia antiga, e deram o tiro de partida na corrida de transição da Europa medieval para a do Renascimento. A história virava uma esquina e essa esquina era Florença – justamente o lugar onde ele desenvolveu boa parte de sua carreira. E Leonardo seguiu a tradição de seu tempo: buscar a representação fiel da natureza usando todo o conhecimento possível como ferramenta, fosse a matemática, a medicina ou o que mais aparecesse. Mas no centro de tudo, segundo Da Vinci, estava algo mais simples: o olhar.

Para ele, os olhos eram a principal via do conhecimento – o que fazia da pintura a mais elevada de todas as artes. “A visão se deixa iludir menos do que qualquer outro sentido”, escreveu.

pintor, então, deveria explorar ao máximo a capacidade que os olhos têm de perceber a luz e as sombras, a posição e a distância, o movimento e o repouso das coisas. E Leonardo explorou tudo o que podia de seus olhos. De suas observações sobre os efeitos da atmosfera sobre uma paisagem, criou normas rigorosas de perspectiva. Definiu, por exemplo, o quanto a imagem dos objetos ao fundo de uma cena deveria ter as cores e os contornos suavizados para passar a impressão de profundidade. Tudo com uma precisão matemática. Ele ainda observou atentamente os movimentos do mundo – da água, das nuvens, das folhas, dos animais e, claro, do homem. Além dos desenhos de anatomia humana, fez dezenas de esboços de cavalos galopando, gatos repousando e cães se coçando. Enfim, em nome da arte, Da Vinci tirou de cada momento da vida uma cena digna de ser representada em detalhes. Para ele, a pintura era uma ciência.

Esse jeito científico de ver a arte levou o autor de Mona Lisa e A Última Ceia a colecionar uma gama enciclopédica de interesses ao longo dos anos – uma característica que o transformou naquele mito que todo mundo conhece: o de homem mais completo que já passou pela Terra. Mitos pecam pelo exagero. Mas, convenhamos, no caso de Da Vinci, fica difícil derrubar a fama. Além de pintor, Leonardo acabou sendo escultor, arquiteto, anatomista, engenheiro, botânico, zoólogo, geólogo, físico, poeta, músico, inventor, piadista, cozinheiro etc. etc. etc. – e parece que era bonitão e cantava bem (!).

Mas seu grande atributo talvez tenha sido outro: “Ele foi o maior curioso da história”, escreveu o historiador inglês Kenneth Clark, autor de uma das mais respeitadas biografias de Da Vinci. De fato. Leonardo nunca deixava de questionar o como e o porquê das coisas.

Seus documentos de anatomia, por exemplo, não registram apenas a aparência e as proporções do corpo humano, mas preocupam-se também com seu funcionamento. Questões do tipo “que tendões movem o braço?”, “como os dois olhos se movem ao mesmo tempo?”, “como se produz um sorriso?”, “como surge um novo ser no ventre de uma mulher?” aparecem com freqüência no verso de seus manuscritos, como lembretes sobre quais seriam seus objetos de pesquisa seguintes. Ele realmente não parava quieto: mesmo nas cenas mais cotidianas, sempre tinha alguma coisa que atiçava sua curiosidade. Tanto que, um dia ele escreveu em um de seus vários caderninhos de anotações: “Por que os cães farejam espontaneamente o traseiro uns dos outros?” A resposta, logo abaixo, fica entre o fato científico – “o faro é um sentido muito importante para os cães” – e o humor irreverente – “se o traseiro tiver algum resquício do aroma de carne, significa que o cão pertence a um dono de posses e, portanto, merece respeito. Caso contrário, trata-se de vira-lata, e pode, portanto, ser mordido”. Hoje conhecem-se mais de 7 mil páginas ilustradas e manuscritas, com anotações como essas, e tratados sobre anatomia, hidráulica, biologia, geometria, mecânica, matemática e medicina. E especialistas na vida do homem multitarefa calculam que existam outras milhares perdidas.

Ironicamente, tal vitalidade intelectual e amplidão de interesses eram, também, uma maldição. O tempo gasto numa observação tão detalhada da natureza fez com que Leonardo raramente concluísse o que havia começado. Vários manuscritos e projetos foram interrompidos – às vezes no estágio de simples esboço, outras vezes, no meio de uma frase – sem jamais serem retomados. Sua própria produção como pintor foi prejudicada por esse vício de ver. Conhecem-se hoje apenas 17 pinturas dele. Nesse sentido, Da Vinci foi mais um homem de planos e sonhos do que de realizações. Ainda assim, personificou o ideal renascentista do homem completo mais do que qualquer um de seus contemporâneos. E olha que entre esses contemporâneos estavam Michelangelo, Rafael, Boticelli…

Mão na massa

Nem só de arte viveu a Renascença. A revolução cultural – impulsionada pela prensa de tipos móveis de Gutenberg e pelas grandes navegações – acelerou o intercâmbio de idéias e o desenvolvimento de novas tecnologias. Nesse contexto, as repúblicas da Itália, constantemente ameaçadas de invasão, abri-ram espaço para uma nova profissão – a de engenheiro civil e militar.

Engenhosidade, você sabe, era o que não faltava a Leonardo. E tem mais uma coisa: para os ricos, investir em tecnologia valia mais a pena do ponto de vista econômico do que patrocinar a arte. Então, fosse por necessidade de sobrevivência, fosse por frenesi criativo, Da Vinci não poderia ficar fora dessa onda tecnológica. E ele serviu à nobreza italiana como arquiteto e engenheiro por anos. Projetou edifícios públicos, pontes, canais, fortalezas, armas. Mas sua capacidade de aprender com a observação do mundo e sua incrível imaginação o levaram mais longe ainda – a pelo menos 4 ou 5 séculos à frente de seu tempo. O ponto é que ele não se ateve só a resolver problemas do cotidiano. Se com a ciênciao homem era capaz de compreender o mundo, com a tecnologia ele poderia dominá-lo. Leonardo entrou fundo nessa idéia: quis fazer com que o homem voasse e pudesse viver debaixo d’água. E acabou desenhando coisas que só virariam realidade nos séculos 19 e 20 – máquinas voadoras, pára-quedas, escafandros, submarinos… Profético.

Só que a maior parte dessas idéias visionárias jamais se concretizou, e justamente por causa do descompasso entre a mente do criador e a capacidade tecnológica da Renascença. Os veículos que ele projetou, por exemplo, não tinham uma fonte de energia que os impulsionasse – faltava alguém para inventar o motor a combustão interna…

Alguns de seus projetos de arquitetura sofriam do mesmo “mal”: eram ousados demais para as técnicas de construção da época. Esse é o caso da ponte encomendada ao artista em 1502 pelo sultão de Istambul para atravessar um vão de 350 metros sobre o canal de Bósforo, na Turquia. Da Vinci desenhou uma ponte de pedra, com um único arco que deveria se estender por 250 metros sobre a água. Mas os construtores duvidaram que o projeto fosse realizável. O projeto de Da Vinci teve de esperar até 2001 para sair do papel. A ponte cruza hoje uma rodovia, numa cidadezinha próxima de Oslo, na Noruega. Leonardo jamais viu o novo mundo que sonhava criar com seus projetos.

Leonardo aproveitou bem tudo o que viu na vida, menos a velhice e a proximidade da morte. Depois de passar 3 anos em Roma – que, apesar da intensa atividade artística, não lhe ofereceu trabalho nenhum –, Da Vinci aceitou o convite de Francisco 1º e se mudou para a França, em 1516, com o título pomposo de “primeiro pintor, arquiteto e engenheiro do rei”. Era agora um homem beirando os 65 anos, que tinha a mão direita paralisada e o espírito ressentido e enciumado do sucesso de seus pares mais jovens, como Michelangelo e Rafael. Passou os 3 últimos anos de vida recluso num chalé confortável, próximo ao palácio de verão da realeza, organizando seus escritos, anotando pensamentos e rabiscando um ou outro teorema de geometria. A morte encontrou, num dia de maio de 1519, um pessimista angustiado com a idéia de que a alma, fosse lá o que fosse, só poderia existir num corpo vivo. Para Da Vinci , o Universo seria regido por leis harmoniosas – vida e morte se complementariam. E ele tinha consciência de que não estava imune a essas leis: “Quando pensava estar aprendendo a viver, eu também estava aprendendo a morrer”.

Razão e sensibilidade

Com imagens hiper-realistas, ele criou a literatura científica moderna. Os desenhos de Da Vinci são revolucionários porque não servem só de apoio aos textos. Eles carregam toda a informação. Quer dizer: além de tudo, ele ainda inventou o infográfico! 3. A mania por detalhes também ajudava na hora de registrar expressões faciais, como as da Madonna Litta, aqui ao lado. O fundo da cena, aliás, mostra como ele dominava outra técnica: a de dar profundidade à paisagem suavizando suas cores e contornos.

Qual é a sua, Mona?

Essa moça parece ora doce, ora esquiva, ora dissimulada. Tudo graças a um truque que Leonardo usava como ninguém: o sfumato – a coisa de borrar, esfumaçar, o contorno das figuras para dar efeitos inusitados. O sorriso enigmático da Mona Lisa vem daí. Não dá pra ver com nitidez o canto esquerdo dos lábios dela, certo? Então o estado de espírito da garota é aquele que a sua cabeça quiser ver na hora.

Para saber mais

Leonardo da Vinci,

Keneth Clark, Penguin Books

http://www.museoscienza.org/english/leonardo/invenzioni.html,

Site com réplicas das invenções de Leonardo

A Era das Revoluções: inglesa, americana e francesa

Revolução Inglesa (Revoluções Puritana – 1640 e Gloriosa – 1688):
“A Revolução Inglesa do século XVII representou a primeira manifestação de crise do sistema da época moderna, identificado com o absolutismo. O poder monárquico, severamente limitado, cedeu a maior parte de suas prerrogativas ao Parlamento e instaurou-se o regime parlamentarista que permanece até hoje. O processo começou com a Revolução Puritana de 1640 e terminou com a Revolução Gloriosa de 1688. As duas fazem parte de um mesmo processo revolucionário, daí a denominação de Revolução Inglesa do século XVII e não Revoluções Inglesas.
Esse movimento revolucionário criou as condições indispensáveis para a Revolução Industrial do século XVIII, limpando terreno para o avanço do capitalismo. Deve ser considerado a primeira revolução burguesa da história da Europa: antecipou em 150 anos a Revolução Francesa.”
http://www.culturabrasil.pro.br/revolucaoinglesa.htm

Revolução Americana (independência dos Estados Unidos):
“Na passagem do século XVIII para o século XIX, com o declínio do Antigo Regime, o liberalismo político e econômico forneceu a base ideológica para a superação definitiva dos entraves que barravam o progresso capitalista. A era das revoluções, iniciada com aA revolta dos colonos ingleses da América do Norte contra a respectiva metrópole foi o resultado de um processo de progressivo amadurecimento, ao, longo do século XVIII, das condições que iriam determinar, no último quartel desse século, a luta em prol de sua independência.”
http://www.algosobre.com.br/historia/revolucao-americana.html
http://educaterra.terra.com.br/voltaire/mundo/2004/01/06/001.htm (mais detalhado)

Revolução Francesa (abolição do Antigo Regime representado pelo absolutismo e o mercantilismo e a consolidação da burguesia no poder):
“A Revolução Francesa significou o fim da monarquia absoluta na França. O fim do antigo regime significou, principalmente, a subida da burguesia ao poder político e também a preparação para a consolidação do capitalismo. Mas a Revolução Francesa não ficou restrita à França. suas idéias espalharam-se pela Europa, atravessaram o oceano e vieram para a América latina, contribuindo para a elaboração de nossa independência política. Por esse seu caráter enumênico é que se convencionou ser a Revolução Francesa o marco da passagem para a Idade Contemporânea.”
http://bibariqueveralui.sites.uol.com.br/revfrancesa.html

FILMES:

Independência dos Estados Unidos

  • O Veleiro da Aventura, de Clarence Brown sobre os colonos de Plymouth e a chegada do Mayflower
  • O PatriotaMel Gibson
  • Revolução, Al Pacino vive um camponês que não escolhe o envolvimento no irremediável turbilhão da revolução de Independência dos Estados Unidos.

Revolução francesa

Grandes monarcas e líderes

Guerras e revoluções

Cultura e ciência

Complementares

  • A Noite de Varènnes, de Ettore Scola
  • Casanova e a Revolução, de Ettore Scola
  • Ligações Perigosas, de Stephen Frears

Revolução Francesa

Quem quer dar uma estudada no tema Revolução Francesa tem boas opções de fazê-lo.

Pequeno Quiz sobre o assunto:

http://quizlet.com/4737260/test/?matching=on&mult_choice=on&tf=on&ignore-case=1&prompt-term=1&prompt-def=1&limit=20

 

 

 

 

 

Visando possibilitar a imersão dos alunos no universo do século XVIII, especialmente na Revolução Francesa, despertando nos alunos do ensino fundamental e médio o desejo de aprender de forma lúdica e prazerosa. Este conteúdo rico e importante para entender o contexto da sociedade contemporânea será apresentado através de um jogo de simulação. Este tipo de game possibilita aos jogadores experimentar situações que não podem muitas vezes ser concretizadas no cotidiano:

http://www.comunidadesvirtuais.pro.br/triade/index.htm

Sites especiais sobre o tema:

http://educaterra.terra.com.br/voltaire/especial/home_rev_francesa.htm

http://www.historianet.com.br/conteudo/default.aspx?codigo=179

http://www.libertaria.pro.br/RevFran_Intro.htm