O dia de hoje na História – 17 de dezembro

Aconteceu em 17 de Dezembro:

1819 – Simon Bolívar declara a independência da República da Grã Colômbia em Angostura.

Ficheiro:Mapa Gran Colombia (1819-1824).svg

1928 – Criação do município de Aparecida (São Paulo).

1989 – Fernando Collor de Mello é eleito presidente do Brasil, derrotando Luiz Inácio Lula da Silva, no segundo turno. Foi o primeiro presidente eleito pelo povo, após o Regime Militar de 1964.

2010 – Autoimolação do tunisino Mohamed Bouazizi, que deu início à Primavera Árabe.

Nasceram em 17 de Dezembro:

1493 – Paracelso, alquimista e médico suíço

1734 – Maria I, a Pia, Rainha de Portugal

1936 – Jorge Mario Bergoglio, eleito Papa Francisco.

Faleceram em 17 de Dezembro:

1830 – Simon Bolívar, militar venezuelano, considerado um dos “Libertadores da América”.

2011 –  Joãosinho Trinta, carnavalesco brasileiro.

O dia de hoje na História – 12 de Dezembro

Aconteceu em 12 de Dezembro:

Belo Horizonte

 

 

 

1897 – Fundação de Belo Horizonte, capital do Estado de Minas Gerais.

 

Quênia

 

 

1963 – Proclamada a independência do Quênia.

 

 

 

 

1971 –  Fundado o Museu Xucurus em Palmeira dos Índios no Estado de Alagoas.

 

 

 

Nasceram em 12 de Dezembro:

Madame Bovary

 

 

1821 – Gustave Flaubert, romancista francês e autor de “Madame Bovary”

O Grito – 1893

 

 

 

1863 – Edward Munch, pintor norueguês autor do quadro “O grito”.

 

 

 

 

1915 – Frank Sinatra, ator e cantor estadunidense, eternizado pelos sucessos “My Way” e “New York, New York”.

1953 – Guel Arraes, roteirista e cineasta pernambucano, diretor de “O Auto da Compadecida”, “Caramuru – A Invenção do Brasil”, “Lisbela e o Prisioneiro”, “O Bem Amado”e outros.

 

Faleceram em 12 de Dezembro:

José de Alencar

 

 

1877 – José de Alencar, escritor brasileiro de obras como O Guarani”, “Iracema”, “Guerra dos Mascates”, “Senhora”, “O Gaúcho”e outras.

Pagu

 

 

1962 – Patrícia Rehder Galvão, a Pagu, escritora e jornalista brasileira.

 

Orlando Villas-Bôas

 

 

2002 – Orlando Vilas-Boas, sertanista brasileiro

Milgram, Zimbardo e o Homem (Nazismo, Ditaduras e Guantánamo)

Pessoas comuns em atos atrozes: experimento de Milgram faz 50 anos

Um dos primeiros voluntários do experimento de obediência utilizando a máquina de choques. Foto: Yale University Library/DivulgaçãoUm dos primeiros voluntários do experimento de obediência utilizando a “máquina de choques”
Foto: Yale University Library/Divulgação

No segundo semestre de 1961, 40 pessoas aceitaram participar de uma pesquisa e aplicaram choques quase mortais em completos desconhecidos tão somente porque um professor – outro completo desconhecido para eles – deu ordens para que continuassem. A aparente sessão de tortura era, na verdade, um experimento científico, e os choques, encenação de atores. Os experimentos de obediência de Stanley Milgram completam 50 anos em 2011 e continuam relevantes no estudo da natureza humana.

Na universidade de Yale, nos Estados Unidos, Milgram conduziu testes psicológicos para investigar como pessoas comuns e sem traços violentos podiam ser capazes de atos atrozes. Sua maior inspiração era tentar entender como pessoas que, até então, pareciam decentes e de bom caráter, podiam ter colaborado com os horrores do holocausto na Alemanha nazista. Milgram acreditava que qualquer pessoa, se submetida à pressão da autoridade, tem tendência a simplesmente obedecer.

O primeiro experimento reuniu 40 voluntários homens que assumiam o papel de um “professor” que deveria fazer perguntas a um “aluno” e lhe dar choques quando ele errasse a resposta. O “aluno” era, na verdade, um ator contratado por Milgram que fingia levar choques cada vez mais potentes. Conforme o voluntário hesitava em seguir com as punições, um cientista que supostamente coordenava o estudo incentivava o “professor” a seguir com o processo.

Dos 40 participantes, 65% chegou a dar choques de 450 volts enquanto os “alunos” imploravam para que eles parassem. Em testes posteriores, a média de 65% sempre se manteve, inclusive em testes com mulheres e em outros países. Uma busca por “Experimento Milgram” no site YouTube retorna diversos vídeos de recriações da experiência.

Submissão à autoridade
Nunca houve um voluntário que tenha interrompido o experimento para ajudar o “aluno”. Uma pequena porcentagem de participantes se recusou a continuar e deixou a sala, mas sem prestar auxílio ou denunciar os pesquisadores que supostamente eletrocutavam pessoas.

De acordo com um artigo escrito pelo professor Thomas Blass, professor de psicologia da universidade de Maryland, nos EUA, Milgram recebeu fortes críticas de colegas logo após a publicação dos resultados. Eles julgavam o experimento excessivamente impactante para os voluntários, já que, mesmo sem ter dado choques verdadeiros, ele se sentiam culpados e assombrados por suas próprias atitudes.

Stanley Milgram
Apesar de reconhecido mundialmente como um dos mais notáveis psicólogos de seu tempo, Milgram se graduou em ciências políticas. Apenas após a formatura, ele quis trocar de carreira e se candidatou a uma vaga de doutorado em psicologia na universidade de Harvard. Rejeitado na primeira tentativa, ele só foi aceito após completar seis cursos de psicologia em outras instituições de Nova York.

Seu experimento de obediência quase lhe custou a licença de psicólogo. Por um ano, ele foi investigado pela Associação Americana de Psicologia devido a questionamentos éticos sobre sua pesquisa. Apenas quando seus colegas consideraram seu experimento válido, ele pôde entrar na associação. Milgram morreu em dezembro de 1984, aos 51 anos.

http://noticias.terra.com.br/ciencia/noticias/0,,OI5321334-EI8147,00-Pessoas+comuns+em+atos+atrozes+experimento+de+Milgram+faz+anos.html

A Experiência de Stanford

Antecedentes

O experimento de aprisionamento da Universidade de Stanford foi um marco no estudo psicológico das reações humanas ao cativeiro, em particular, nas circunstâncias reais da vida na prisão. Foi conduzido em 1971, por um time de pesquisadores liderados por Philip Zimbardo, da Universidade de Stanford. Voluntários faziam os papéis de guardas e prisioneiros, e viviam em uma prisão “simulada”. Contudo, o experimento rapidamente ficou fora de controle e foi abortado. Problemas éticos cercando o experimento de aprisionamento da Universidade de Stanford geram comparações com a Experiência de Milgram, que foi conduzido em 1963, na Universidade de Yale, por Stanley Milgram – amigo de Zimbardo nos tempos do ensino médio. O experimento foi patrocinado pela Marinha Americana, para explicar os conflitos no sistema prisional da Corporação. Zimbardo e seu grupo procuravam testar a hipótese que guardas prisionais e seus cativos fossem auto-seletivos, com uma certa disposição que naturalmente levaria a péssimas condições em tal situação.

A Seleção

Os participantes foram recrutados através de um anúncio de jornal e receberiam US$ 15,00 por dia (US$ 76,00 em valores atualizados – 2006), para participar de um “experimento simulado de aprisionamento”. Dos 70 inscritos, Zimbardo e seu time selecionaram 24, que foram julgados como sendo mais estáveis psicológicamente e possuindo boa saúde.

Estes participantes eram, na sua maioria, brancos, de classe média, do sexo masculino. Foram formados dois grupos de igual número de “prisioneiros” e “guardas”. Uma vez que este experimento se tomou na época da guerra do Vietnan a maioria dos jovens desejava ser prisioneiros se opondo a guerra, originando assim a necessidade da seleção. É interessante notar que o grupo dos prisioneiros, após terminado o experimento, pensavam que os “guardas” haviam sido escolhidos devido sua forma física e tamanho, mas na realidade eles foram escolhidos jogando cara-ou-coroa e não havia diferença objetiva de estatura entre os dois grupos.

A Prisão

A prisão, em si, localizava-se no subsolo do Departamento de Psicologia de Stanford, que fora convertido para esse propósito. Um estudante assistente de pesquisa era o “Diretor” e Zimbardo o “Superintendente”. Zimbardo criou uma série de condições específicas na esperança de que os participantes ficassem desorientados, despersonalizados e desindividualizados.

Os Guardas

Aos guardas eram entregues bastões de madeira e uniformes de estilo militar de cor bege, que foram escolhidos pelos próprios “guardas” em uma loja local. Eles também receberam óculos de sol espelhados para evitar o contato visual (Zimbardo teve essa idéia a partir de um filme). Diferentemente dos prisioneiros, os guardas trabalhariam em turnos e poderiam voltar para suas casas nas horas livres, porém alguns preferiam voluntariar-se para fazer horas-extras sem pagamento.

Os Prisioneiros

Os prisioneiros deveriam vestir apenas roupões ao estilo do oriente-médio, sem roupa de baixo e chinelos de borracha, tais medidas fariam com que eles adotassem posturas corporais estranhas – segundo Zimbardo – visando aumentar o desconforto e a desorientação. Eles receberam números ao invés de nomes. Estes números eram costurados aos seus uniformes e os prisioneiros tinham de usar meias-calças apertadas feitas de nylon em suas cabeças para simular que seus cabelos estivessem rapados, similarmente aos cortes utilizados na recruta militar. Além disso, eles eram obrigados a utilizar correntes amarradas em seus tornozelos como um “lembrete permanente” de seu aprisionamento e subjugação.

As Instruções

No dia anterior ao aprisionamento, os guardas foram convocados a uma reunião de orientação, mas não receberam nenhuma instrução formal. Apenas a violência física não seria permitida. Lhes foi dito que seria sua responsabilidade o funcionamento da prisão e que para tanto eles poderiam recorrer a qualquer meio que julgassem necessário. Zimbardo fez o seguinte discurso aos guardas durante a reunião: “Vocês podem gerar nos prisioneiros sentimentos de tédio, de medo até certo ponto, transmitir-lhes uma noção de arbitrariedade e de que suas vidas são totalmente controladas por nós, pelo sistema, por vocês e por mim, e não terão privacidade alguma… Nós vamos privá-los de sua individualidade de diversas maneiras. De um modo geral, isso fará com que eles se sintam impotentes. Isto é, nesta situação nós vamos ter todo o poder e eles nenhum. – do vídeo “The Stanford Prison Study“, citado em Haslam & Reicher, 2003. Aos participantes que seriam os prisioneiros, apenas foi dito para que eles esperassem em suas casas até serem “convocados” no dia que o experimento começaria. Sem qualquer outro aviso, eles foram “acusados” de roubo armado e presos pela verdadeiro departamento de polícia local de Palo Alto, que cooperou nesta parte do experimento. Os prisioneiros passaram pelo processo de identificação regular da polícia, incluindo a tomada de impressões digitais e fotografias, e foram informados de seus direitos. Depois disso foram levados até a “prisão simulada” onde foram revistados, “higienizados” e receberam suas novas identidades (números).

A Crise

O experimento ficou rapidamente fora de controle. Os prisioneiros sofriam – e aceitavam – tratamentos humilhantes e sádicos por parte dos guardas e, como resultado, começaram a apresentar severos distúrbios emocionais. Após um primeiro dia relativamente sem incidentes, no segundo dia eclodiu uma rebelião. Guardas voluntariaram-se para fazer horas extras e trabalhar em conjunto para resolver o problema, atacando os prisioneiros com extintores de incêndio e sem a supervisão do grupo de pesquisa. Seguidamente, os guardas tentaram dividir os prisioneiros e gerar inimizade entre eles, criando um bloco de celas para “bons” e um bloco de celas para”ruins”.

Dividir para reinar

Ao dividirem os prisioneiros desta forma, os guardas pretendiam que eles pensassem que havia “informadores” entre eles. Estas medidas foram altamente eficazes e motins em grande escala cessaram. De acordo com os consultores de Zimbardo, a tática é similar à utilizada, com sucesso, nas prisões americanas reais.

Humilhações como punição

A “contagem” dos prisioneiros, que havia sido inicialmente instituida para os ajudar a se acostumarem com seus números de identificação, transformaram-se em cenas de humilhação, que duravam horas. Os guardas maltratavam os prisioneiros e impunham-lhes castigos físicos, como por exemplo exercícios que obrigavam a esforços pesados. Muito rapidamente, a prisão tornou-se um local insalubre e sem condições de higiene e com um ambiente hostil e sinistro. O direito de utilizar o banheiro tornou-se um privilégio que poderia ser – e freqüêntemente era – negado. Alguns prisioneiros foram obrigados a limpar os banheiros sem qualquer proteção nas mãos. Os colchonetes foram removidos para o bloco de celas dos “bons” e os demais prisioneiros eram obrigados a dormir no concreto, sem roupa alguma. A comida era frequentemente negada, sendo usada como meio de punição. Alguns prisioneiros foram obrigados a despir-se e chegou a haver atos de humilhação sexual.

O envolvimento do pesquisador

Zimbardo descreveu que ele mesmo estava se sentindo cada vez mais envolvido na experiência, que dirigiu e na qual foi igualmente participante ativo. No quarto dia, ele e os guardas, ao ouvirem um rumor sobre um plano de fuga, tentaram, alegando necessidade de maior “segurança”, transferir o experimento inteiro para um bloco prisional verdadeiro, pertencente ao departamento da polícia local e fora de uso. Felizmente a polícia local não acatou a idéia, e Zimbardo relatou ter-se sentido irritado e revoltado pelo que ele via como “falta de cooperação” das autoridades locais. À medida que o experimento prosseguia os guardas iam dando mostras de um crescente sadismo, especialmente à noite, quando eles pensavam que as câmeras estavam desligadas. Os investigadores afirmaram que aproximadamente um terço dos guardas apresentou tendências sádicas “genuínas”. Muitos dos guardas ficaram bastante desapontados quando a experiência foi terminada antes do previsto. Um dos pontos que Zimbardo ressaltou como prova de que os participantes haviam internalizado seus papéis é que, ao ser-lhes oferecida a “liberdade condicional” em troca do pagamento dos dias que faltavam para a experiência terminar, a maioria dos “prisioneiros” aceitou o acordo. Eles receberiam apenas pelos dias em que haviam participado. Porém, ao ser-lhes comunicado que a “liberdade condicional” havia sido rejeitada e que se eles fossem embora não receberiam nada, os prisioneiros permaneceram no experimento. Zimbardo alega que eles não tinham quaisquer razões para continuarem participando se estavam dispostos a prescindir do pagamento para abandonarem a prisão.

Um prisioneiro chegou a desenvolver rash cutâneo de origem psicossomática por todo o corpo, ao descobrir que não poderia deixar o experimento ou não receberia nenhum dinheiro. Zimbardo ignorou alegando que ele apenas estava “fingindo” estar doente para poder escapar. Choro incontrolável e pensamento desorganizado também foram sintomas comuns entre os prisioneiros. Dois deles sofreram tal trauma que tiveram de ser removidos e substituídos.

O horror e a greve

Um dos prisioneiros substitutos, com o número 416, ficou tão horrorizado com o tratamento que os guardas estavam dando que resolveu iniciar uma greve de fome. Ele foi trancado em um compatimento exíguo, que servia como “solitária”, durante três horas, enquanto os guardas o obrigaram a segurar as salsichas que tinha recusado comer. Os demais prisioneiros consideravam-no um “causador de problemas”. Para explorar esse sentimento, os guardas fizeram uma oferta: os prisioneiros poderiam abrir mão das suas mantas para que o substituto fosse libertado da solitária, ou ele seria mantido lá durante a noite toda. Os prisioneiros escolheram ficar com as suas mantas. Zimbardo interveio e o substituto pôde voltar para sua cela.

O final

Quando Zimbardo resolveu abortar o experimento, foi chamada uma pesquisadora que nada sabia do que havia sido feito para conduzir as entrevistas com os participantes. A pesquisadora em questão estava tendo um “relacionamento” com Zimbardo na época do experimento, e atualmente é casada com ele. Dentre todas as 50 pessoas que visitaram a “prisão”, a única pessoa que questionou a ética de tal experimento foi ela. O experimento, que havia sido planejado para durar duas semanas durou apenas seis dias.

Ligações externas

Há dois filmes que foram baseados neste polêmico experimento de Zimbardo. O primeiro trata-se do “A Experiência”, cujo Título Original em alemão é : “Das Experiment“. Está no gênero suspense. Foi lançado em 2001 e dura 119 minutos. O diretor é Oliver Hirschbiegel. Mais informações em: http://www.interfilmes.com/filme_13312_A.Experiencia-(Das.Experiment).html O segundo é um refilmagem do primeiro e chama-se “Detenção”, cujo título original em inglês é “The Experiment”. Também é do gênero suspense e foi lançado em 2010 e dura 95 minutos. Mais informações em: http://www.interfilmes.com/filme_13312_a.experiencia.html

http://pt.wikipedia.org/wiki/Experimento_de_aprisionamento_de_Stanford

The Experiment (O Experimento) – Detenção – O Filme

 ATENÇÃO: Este post contém Spoillers.
O filme The Experiment (O Experimento), traduzido para o português como Detenção, conta a história de  um grupo de homens que se ofereceu para participar de um experimento científico, a fim de ganhar 100 mil dólares caso ficassem por 12 dias em um ambiente que, posteriormente, descobririam simular uma prisão. Lá dentro eles foram divididos em 2 subgrupos: os guardas e os presos. O dever dos guardas era fazer com que os presos cumprissem as 5 regras descritas abaixo:

1) Falar apenas quando interpelado;
2) Comer toda a comida do prato;
3) Não tocar, sob nenhuma circunstância, nenhum dos guardas;
4) Cumprir diariamente 30 minutos de recreação;
5) Ser punido de maneira equivalente à regra que deixasse de cumprir;
Para que estas regras fossem cumpridas, a equipe de guardas poderia lançar mão de qualquer recurso, e a punição para o desrespeito de qualquer uma delas deveria vir em no máximo 30 minutos; caso contrário, o experimento seria interrompido e todos perderiam a chance de ganhar a recompensa. Os presos não tinham conhecimento destas regras, de modo que foram orientados apenas a permanecer 12 dias lá dentro.
O que ninguém esperava é que, logo na primeira refeição servida aos detentos, os problemas começariam. O feijão oferecido ao grupo tinha uma aparência aversiva e alguns deles se recusaram a comê-lo, desrespeitando a regra número 2. Diante da insistência do guarda que servia a comida, um dos detentos jogou o prato no lixo e alguns outros jogaram no próprio guarda. A punição veio logo em seguida: o primeiro que se manifestou contra a comida foi punido com 10 flexões, mas recusou-se a fazê-las e por isto, esta punição foi estendida a todos os outros detentos, gerando insatisfação em todo o grupo.
No decorrer do filme, várias outras situações parecidas aconteceram: guardas tentando fazer com que os presos seguissem as regras – o que sempre produzia algum tipo de estimulação aversiva e, em função dela, respostas de contra controle – e os punindo quando não seguiam, gerando ainda mais estimulação aversiva e tentativas de contra controle. Deste modo, instalou-se o círculo vicioso que levou o experimento ao completo caos em menos da metade do tempo que deveria durar. Quem tiver interesse em conhecer o desfecho da estória, pode alugá-lo na locadora mais próxima de casa. Vale a pena.
O filme é baseado no famoso Experimento de Zimbardo e é um excelente material para ilustrar discussões a respeito das consequências da falta de clareza sobre as regras impostas a um grupo de pessoas, efeitos da punição sobre o comportamento, “construção” de líderes grupais, conflito entre valores pessoais/morais e situações adversas, entre outros temas.

Filme A Onda: pedagogia para uma autocracia ditatorial e fascista

24 de maio de 2012 | Categoria:: Cultura |
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Filme A Onda (Die Welle)“Hoje a gente não tem contra o que se revoltar. O que precisamos é de um objetivo comum para unir a geração.” Essa é a frase que resume o filme “A onda”, um longa-metragem alemão que discute a possibilidade do nascimento de um novo regime ditatorial, como ele é formado e o que é necessário para transformar um povo unido em apoiadores de um sistema opressor e fascista.

O filme – que é baseado em uma história real ocorrida em 1967 na Flórida (EUA) – conta a história do professor Rainer Wenger, um professor de formação libertária que perde a oportunidade de coordenar uma semana de projetos sobre anarquia em uma escola alemã. Devido a um atraso ele fica responsável por ensinar sobre autocracia.

Muitos alunos se inscrevem no projeto devido a presença do professor. Wenger então decide por um plano pedagógico onde estabelece uma autocracia na prática. Através das ideias dos alunos ele vai desenvolvendo os pilares de uma autocracia ditatorial e fascista: presença de um líder – personificada no professor; disciplina – todos os alunos precisam de autorização para falar, e, unidade – os estudantes criam um uniforme, um símbolo e um nome para o grupo – “A onda”.

Alguns estudantes com ideais mais justos e com visões diferentes deixam o grupo por achar a experiência pedagógica uma loucura.Outros estudantes se animam e em alguns dias “a onda” se torna um movimento que abrange a grande maioria dos jovens da cidade. Quem não adere “a onda” acaba sendo discriminado pelo grupo que toma atitudes irracionais pichando o símbolo pela cidade chegando até o prédio da prefeitura e rivalizando com outros grupos como os anarquistas, numa clara alusão ao nazi-fascismo.

Quando o professor percebe que a situação está perdendo o controle, ele convoca os alunos para o auditório da escola, onde começa um discurso em que fala da unidade do grupo. Um dos alunos – namorado de uma estudante que criticava “a onda” – tenta se opor ao plano de ampliar o grupo e é considerado traidor. O professor pede que outros alunos o levem até o palco e decidam o que fazer com ele. Nenhum deles sabe o que fazer, demonstrando que todos estavam psicologicamente controlados pela figura de liderança do professor.

Então o professor decide acabar com a experiência e pedir para os alunos refletirem sobre a ditadura que eles haviam criado, mas um aluno com problemas pessoais e psicológicos ameaça à todos com uma arma, obrigando que se continue com “a onda”. Ele acaba atirando em um aluno e se suicidando.

O filme, muito bem produzido, tem como maior destaque a capacidade de levantar um debate sobre a possibilidade de surgirem novos governos opressores na sociedade atual, inclusive em um país que muito sofreu com o nazismo. Os principais pontos para estruturação desse governo são expostos e acabam por mostrar que, mesmo com a denúncia constante dos crimes cometidos por governos autoritários como a ditadura militar brasileira e o 3° Reich alemão (nazismo), a população ainda está suscetível a uma manipulação por parte da mídia, de um líder ou de um grupo, que com ideias falsas de igualdade e determinação de um povo pode vir a organizar um novo regime de atrocidades e genocídios como muitas vezes a humanidade teve que combater.

http://averdade.org.br/2012/05/filme-a-onda-pedagogia-para-uma-autocracia-ditatorial-e-fascista/

1929 a 2008: Crise e Xenofobia

Quais as diferenças e as semelhanças entre a crise de 1929 e a que atingiu o mundo entre 2008 e 2009?

Bruna Nicolielo (bruna.nicolielo@abril.com.br). Com reportagem de Rita Trevisan

QUEDA DAS BOLSAS Consequência comum das crises que eclodiram em 1929 e em 2008. Foto: Rischgitz/Getty Images
QUEDA DAS BOLSAS Consequência comum das crises que eclodiram em 1929 e em 2008

A principal diferença diz respeito à causa das recessões. Em 1929, a economia norte-americana apresentava um ritmo de crescimento intenso e a produção extrapolava a capacidade de absorção pelo mercado interno. A saída foi incrementar as exportações.

Com a retomada da produção europeia e a competição no mercado externo, os EUA foram obrigados a desacelerar, o que levou à crise. Em 2008, ao notar uma diminuição do ritmo de crescimento do país, o governo, por intermédio do FED (o Banco Central dos EUA), reduziu a taxa de juros e incentivou a ampliação do crédito. Os bancos se tornaram menos rigorosos na concessão de empréstimos e os bens imobiliários sofreram uma supervalorização. A inflação aumentou e o FED corrigiu a taxa de juros, o que provocou inadimplência.

As consequências de ambas são semelhantes e incluem a queda nas bolsas, o aumento do desemprego e prejuízos para os investidores externos.


Consultoria Ricardo Pereira Cabral, professor de História da Universidade Gama Filho (UGF).

http://revistaescola.abril.com.br/historia/pratica-pedagogica/quais-diferencas-semelhancas-crise-1929-atingiu-mundo-2008-2009-608094.shtml

Entendendo Ambas as Crises

Esta charge retrata, de um modo humorístico, os principais afetados pelas crises.Imagem

Por isso, vou usá-la como introdução deste post, que pretende explicar melhor a origem de ambas as crises.

Como podemos observar no primeiro quadro, que expõe a situação da crise de 29, um banqueiro se joga de uma janela de algum prédio dos EUA, provavelmente em Wall Street. No segundo quadro, onde a atual crise é representada, vemos pessoas sendo jogadas do mesmo prédio, só que agora é o banqueiro quem as joga.

A relação da origem de ambas as crises é bastante parecida. A primeira (de 29) se originou da superprodução das indústrias que cresciam absurdamente. As ações sempre estavam em alta, e a produção de ferro agia em 100% de sua capacidade. O mercado de ações fervilhava. Um cidadão que não possuía dinheiro obtinha empréstimos nos bancos. O empréstimo concebido pagava cerca de 90% do valor total da ação. O cidadão-investidor comprava a ação, esperava-a valorizar, vendia, quitava sua divida com o banco e embolsava o lucro. Porém houve uma hora em que o consumidor já não precisava mais dos produtos fabricados e houve uma brusca queda no consumo destes. Porém as indústrias não acompanharam esta queda, o que levou a um enorme prejuízo. Os investidores que investiram na bolsa, perderam tudo e não tinham como pagar os bancos e, muitos, quebraram. Mas por que os banqueiros foram os mais afetados? O povo não sofreu demissões em massa? Sim, sofreu.Sofreu muito também pois o atual presidente, Herbert Hoover demorou muito para agir. O governo da época estava muito ligado com o livre-mercado, portanto, acreditava numa mudança milagrosa que revertesse o efeito da crise. Milhares de americanos perderam seus empregos agravando ainda mais a crise. O mundo todo estava em meio a uma crise enorme.

Mas com a chegada de Franklin Delano Roosevelt, melhorou. Ele aplicou formas Keynesianistas, e com fortes reformas na  infraestrutura americana, gerou empregos e aqueceu, depois de algum tempo, a economia. Um grande trunfo de Roosevelt foi aplicar na infraestrutura, pois isso reaqueceu a economia, criando consumidores,as empresas começaram a produzir mais e vender mais. A confiança voltara. Na economia, a confiança é o que determina a queda ou a valorização. A certeza de lucro.

A atual crise no mercado imobiliário dos EUA. Americanos compravam casas a prazo com crédito do banco, dando como garantia, uma hipoteca da própria casa adquirida. Essa hipoteca, que se chama subprime, era negociada pelos bancos que acreditavam em um retorno dos consumidores. Em meio à esta agitação do mercado imobiliário, houve uma produção muito grande de casas. Com isso ocorreu uma desvalorização de casas, por que quando um produto está em abundância no mercado, ele tende à cair. Além também da inadimplência. A queda da hipoteca acompanhou a queda dos preços das casas. Os bancos tinham muito menos do que esperavam; as transações feitas entre os bancos que vendiam e compravam estes títulos podres, havia valorizado o preço destes muito além do que eles realmente valiam. E então bancos quebraram, levando consigo ações de outras empresas que também quebraram e demitiram muitos funcionários diminuindo o mercado consumidor de todas as empresas. O famoso “efeito dominó.” Mas agora era a vez dos bancos serem ajudados. O governo gastou mais que US$1trilhão para comprar títulos podres de bancos e impedir que eles quebrassem. Os banqueiros foram salvos, já o povo ainda não.

Pode-se dizer que a Crise de 29 foi uma crise de mercado que influenciou o sistema financeiro, e a atual crise uma crise financeira que influenciou o mercado. E que nem sempre, onde a crise é originada é onde tem o maior impacto econômico.

Fonte:BRENER, Jayme. 1929: A Crise Que Mudou O Mundo. São Paulo: Ática, 1997.

http://criseseconomicas.wordpress.com/

A xenofobia européia, por Ignacio Ramonet

BY

ADMIN

 – 01/02/2011

Por Ignacio RamonetLe Monde Diplomatique | Tradução: Cauê Seigne Ameni

Não é surpresa. Organizado por demanda do principal partido do país, a União Democrática de Centro (que já havia conseguido, em 2009, proibir a construção de minaretes), um plebiscito legalizou (por 53% dos votos que ) a expulsão (ao final da pena) de todos estrangeiros condenado por crimes “graves” (tais como, homicídio, estupro, e assalto) mas também proxenetismo e trafico de drogas. Também terá de deixar o país quem simplesmente tiver “recebido abusivamente os benefícios sociais ou não pagar pensão alimentícia”.

É uma nova vitória para a extrema direita na Europa. Pode alimentar tentações semelhantes em outros partidos de ideologias semelhantes. Trará inevitavelmente certas consequências para a União Europeia, à qual a Suíça não pertence, mas com a qual Berna assinou, em 2002, um acordo sobre a livre circulação de pessoas. O que farão os governantes europeus quando a Suíça promover as expulsões, que são claramente dupla pena?

No fundo, a medida traduz sobretudo, numa crescente inquietude com os imigrantes, acusados de ser a raiz de todos os problemas. É evidente que todas as sociedades têm o direito de definir o que aceitam ou não, em seu espaço público. E não seria o caso de o país acolhedor modificar suas praticas em função dos novos habitantes. São estes que devem fazer um esforço de adaptação. Mas a partir destas evidências consensuais, os novos partidos da extrema direita constroem um discurso islamofóbico, expandindo seus círculos de influência e, pouco a pouco, fazendo passar todas as suas propostas extremistas.

Em nome de uma imperativa e abstrata “modernização”, as sociedades europeias são submetidas, há alguns anos, aos terremotos e traumas de uma grande violência. A lógica da competitividade foi elevada ao nível de imperativo categórico. A mundialização econômica, o crescimento da União Europeia, o fim da soberania nacional, a criação do euro, a quebra das fronteiras, a chegada massiva de imigrantes, o multiculturalismo e o desmantelamento do Estado de bem-estar social provocaram, entre muitos europeus, uma perda de referência e identidade. Além disso, tudo isso foi produzido em um contexto de grave crise financeira, econômica e social, provocando insuportaveis estragos sociais (25 milhões de desempregados, 85 milhões de pobres) e um aumento de todos os tipos de violência.

Diante da brutalidade e a rapidez de tantas mudanças, para muitos cidadãos as incertezas acumulam-se, a névoa cobre o horizonte, o mundo parece opaco e a história parece fugir de qualquer decisão. Muitos europeus sentem-se abandonados pelos governantes (de direita ou esquerda), que a mídia, aliás, não cessa de atacar como empresários fraudulentos, mentirosos e corruptos. Perplexos no centro desse furacão, muitos frustram-se e se agarram ao sentimento de que, como dizia Tocqueville, “o passado já não ilumina mais o futuro, o espirito caminha pelas trevas”…

Sobre tal terreno social – feito de medos, ameaças de desemprego, distúrbios e ressentimentos – reaparecem os velhos mágicos. Com base em argumentos demagógicos, projetam sobre o estrangeiro, o muçulmano, o judeu ou o negro, toda a causa da nova desordem e da sensação de insegurança. Os imigrantes são os alvos mais fáceis, por simbolizarem o transtorno social e representarem, ao olhos do europeu mais modesto, uma concorrência indesejável no mercado de trabalho.

A extrema direita sempre pretendeu tratar as crises designando um único culpado: o estrangeiro. É desolador constatar que essa atitude é hoje encorajada pelas contorções dos partidos democráticos, reduzidos a se interrogar sobre que dose de xenofobia seu discurso poderá incorporar.

Na França, a Front National (FN), de Jean-Marie Le Pen, propôs há algum tempo o culto do sangue e do solo, a restauração da nação (no sentido étnico do termo), o estabelecimento de um regime autoritário para lutar contra a insegurança, o retorno de uma protecionismo econômico não solidário, a volta das mulheres ao lar e a expulsão de três milhões de estrangeiros para liberar os postos de trabalho destinado aos franceses “de fibra”. Apesar de venenoso, esse discurso seduz, há algum tempo, “mais de um quarto dos franceses”.

E para atrair eleitores, o presidente Nicolas Sarkozy lançou, em julho, uma campanha contra os ciganos. O direito europeu impede a expulsão dos cidadãos dos países do bloco. Mesmo assim, o governo francês não hesitou em conduzir até a fronteira, nas duas primeiras semanas de outubro de 2010, 8.601 ciganos romenos: 7.447 “de maneira voluntaria”; 1.154, a força. Alega-se que os acordos da União Européia com a Romênia e a Bulgária, que sacramentaram a adesão desses dois países em 2007, prevêem uma carência de sete anos antes de autorizar a livre circulação de pessoas e que esse prazo não expirou1. É verdade, conforme o direito europeu em vigor. Porém esse mesmo prazo aplica-se, por exemplo, aos húngaros, tchecos e poloneses, que não foram expulsos maciçamente da França… Além disso, Paris alega que cada cigano aceitou sua partida de “maneira voluntaria”, por uma soma de 300 euros…Um “voluntariado” pouco crível. O desmantelamento de acampamentos ciganos não os deixa com outra possibilidade, senão aceitar a “ajuda” de retorno.

A Itália de Silvio Berlusconi procede da mesma maneira. Os acampamentos são regularmente evacuados. Em Milão, por exemplo, o numero de ciganos foi reduzido de dez mil a 1,2 mil…Outros países da União Europeia agem de forma mais discreta. Na Dinamarca, o prefeito de Copenhagen, Frank Jensen (social-democrata), queixou-se do numero de ciganos “envolvidos em assaltos”. Consequência: o governo deportou dez ciganos no começo de setembro, depois de já ter expulso vinte em julho. A Suécia, Áustria e Bélgica agem da mesma forma, mas concentram seus esforços sobretudo sobre os ciganos da Servia, de Kosovo e Macedônia – Estados não membros da União Europeia. Por seu lado, a Alemanha assinou um acordo para deportar cerca de 12 mil ciganos que haviam fugido de seu país no decorrer da guerra de Kosovo. Também a Suíça estabeleceu igualmente um “acordo de retorno” com as autoridades de Kosovo. Na Hungria e em Eslovênia, os ciganos foram recentemente vitimas de ataques mortais…

Essas práticas xenofóbicas são condenadas pelas instâncias internacionais. A Corte Europeia dos Direitos Humanos considera que, pelas suas atitudes contra os ciganos, dois membros da União Europeia (a República Tcheca e a Grécia), violaram direitos humanos. O Comitê da ONU que administra a Convenção Internacional contra todas Formas de Descriminação Racial (CERD), assinala que expulsões forçadas e descriminatórias de ciganos também ocorre na Bulgária, República Tcheca, Grécia, Lituânia e Romênia.

Tais praticas não são necessariamente impopulares. Na França, por exemplo, uma pesquisa indica que 55% dos católicos apoiam as expulsões dos ciganos. Um número cada vez maior de europeus pensa que a integração (em particular dos muçulmanos) é um fracasso, que o discurso sobre “o enriquecimento cultural pela diversidade” não prospera e que seria necessário, portanto, “parar de acolher tantos estrangeiros” (Le Monde, 27 novembro 2010).

A nova xenofobia europeia é expressa de forma tão aberta que diversos de governantes de centro-direita são hoje apoiado por partidos xenofóbicos e nacionalistas. Na Itália, Holanda, Áustria, Suécia e Dinamarca os governantes expressam ou uma coalizão com a extrema direita, ou uma aliança minoritária que sobrevive graças a seu consentimento.

Na Dinamarca, por exemplo, onde teve lugar, em 2006, a “crise das caricaturas de Maomé”, o primeiro-ministro liberal Anders Fogh Rasmussen é aliado, desde 2001, ao Partido do Povo Dinamarquês (PPD, extrema direita) dirigido por Pia Kjaersgaard que construiu sua popularidade numa campanha anti-imigratória, anti-muçulmana em particular. Na Suécia, os Democratas da Suécia (SD, extrema direita) entraram no Parlamento em setembro, ocupando vinte assentos. Seu programa é abertamente “xenofóbico e populista”. Um de seus anúncios na campanha eleitoral – que o Canal TV4 recusou-se a difundir – mostrava um velha senhora sueca andando apoiada sobre um andador. Mulheres com burcas, passavam à sua frente e chegavam antes dela no balcão, para alcançar os benefícios sociais…

Na Áustria, no período das eleições regionais e municipais de outubro, o partido FPÖ (extrema direita), dirigido por Heinz-Christian Strache, progrediu para 27% (14,83% em 2005). Na Holanda, os deputados democrata-cristãos e liberais, validaram por unanimidade, em 5 de outubro, um acordo governamental com o PVV (Partido da liberdade), islamofóbico, de Geert Wilders, que controla vinte assentos no Parlamento. Em troca de seu apoio, o PVV obteve concessões para tratar os assuntos de imigração. A lei que proíbe o uso da burca será votad nos próximos meses.

Na Itália, a nova lei de segurança, promulgada pelo primeiro-ministro Sílvio Berlusconi, permite a formação das “patrulhas cidadãs”, controladas pela extrema direita. Já são mais de duas mil. Constituem-se de voluntários, pertencentes à Liga do Norte, de Umberto Bossi, ou ao Movimento Social Italiano – Direita Nacional (MSI-DN). Os militantes usam vestimentas paramilitares: camisa cáqui, calças cinzas e bonés pretos com logo da águia imperial romana… Seu objetivo declarado é: “Salvar a integridade nacional” e “limpar” as cidades e vilarejos de “imigrantes indesejáveis”.

Muitos países europeus decidiram limitar as “práticas culturais” dos muçulmanos. França e Bélgica, por exemplo, votaram leis contra o uso do véu, burca ou niqab. Esses países proíbem agora qualquer rosto “mascarado ou dissimulado, em parte ou por inteiro, nos meios públicos”. Mesmo que as estratégias divirjam, essa questão influencia igualmente outros Estados europeus. Na Dinamarca, o uso do véu por inteiro é, desde 2010, limitado em espaços públicos. Na Holanda, há vários projetos para proibi-los, especialmente na esfera educacional e pública. Barcelona, a segunda cidade da Espanha, está preste de proibir a burca e o niqab em edifícios municipais, como já foi decidido em algumas cidades da Catalunha.

Na Alemanha, sob a pressão de seu partido, CDU (democrata-cristão), que exige uma atitude mais dura sobre a imigração, principalmente contra os muçulmanos, a chanceler Angela Merkel afirmou, em 17 de outubro, que “o conceito de sociedade multicultural alemã fracassou”. Merkel lançou uma advertência aos imigrantes: “Aquele que não aprender imediatamente o alemão, não é benvindo”. Suas declarações são reforçadas pelo presidente do lander de Hesse, Volker Bouffer, barão da CDU: “O Islã não pertence à república”. O presidente do grupo parlamentar da CDU, Volker Kauder, declarou também: “O islamismo não responde às exigências de nossa Constituição, fundada sobre nossa tradição judaico-cristã”. Mais de um terço dos alemães estimam que seu país estaria melhor sem os muçulmanos, 55% declaram ver os muçulmanos como pessoas “desagradáveis” e 58% estimam que “seja preciso proibir as praticas de sua religião”.

Em toda União Europeia, em 2010, avançaram muito as posições extremistas, inclusive “antidemocratas e racistas”, bem como a aceitação do darwinismo social. O “potencial antidemocrático” da sociedade pode ser medido agora, na Europa, pelo termômetro da islamofobia.

Segundo um estudo conduzido pela Fundação Friedrich Ebert, e publicado em 13 de outubro, a atual crise econômica “deslocou para direita o espaço politico” europeu e põem concepções extremistas no centro do discurso eleitoral. A xenofobia expressa-se agora de maneira desinibida. Tudo faz temer que – como nos EUA com o populismo do Tea Party – as ideias politicas radicalizem-se à direita. E terminem por ameaçar a democracia.

1A livre circulação de trabalhadores dá a todo cidadão da União Europeia (UE) o direito de trabalhar e viver em qualquer país do bloco. Esta liberdade fundamental, instituída pelo artigo 39º do tratado CE, permite:

  • Buscar trabalho em outro país;
  • Lá trabalhar sem precisar de uma licença de trabalho;
  • Lá viver com este objetivo;
  • Lá permanecer mesmo terminar o trabalho;
  • Beneficiar-se do mesmo tratamento dispensado aos cidadãos desse país no que concerne ao acesso ao emprego, às condições de trabalho, e a quaisquer outras vantagens sociais ou fiscais capazes de facilitar a integração no pais de acolhimento

Os cidadãos búlgaros, tchecos, estões, lituanos, húngaros, poloneses, romenos, eslovenos e eslovacos podem encontrar algumas restrições para trabalhar em outros países. No entanto, essas restrições não devem exceder um período de sete anos a partir da adesão destes países à UE (Bulgária e Romênia entraram em 1º de janeiro de 2007, todos os demais em 1º de maio de 2004)

http://www.outraspalavras.net/2011/02/01/a-xenofobia-europeia-por-ignacio-ramonet/

Europa: Crise gera xenofobia entre gregos e alemães

Angela Merkel é o atual rosto da Europa e, como tal, o “bode expiatório” do povo grego
Foto: World Economic Forum / Flickr

Europa: Crise gera xenofobia entre gregos e alemães

Por Ana Catarina Medeiros – jpn@icicom.up.pt
Publicado: 03.05.2012 | 18:18 (GMT)
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A Grécia está em crise há cerca de seis anos. Além da revolta civil que marcou a história recente do país, agravam-se agora as relações com a Alemanha. A xenofobia cresce nas ruas de Atenas e o seu objeto é o povo alemão.

Com a atual conjuntura económica crescem as críticas e a atribuição de culpas entre os países da União Europeia (UE). Na Grécia começa a notar-se o crescimento de uma forte crítica relativamente à austeridade alemã, o que levou à alteração de alguns comportamentos sociais perante o povo alemão.

Desde a frase “alemães=nazis” escrita em inúmeros cartazes nas manifestações gregas às capas de jornais com Angela Merkel, a chanceler alemã, a empunhar uma cruz suástica e um chicote, cresce o estereótipo dos alemães como opressores indesejáveis. Nas ruas da capital grega notam-se, agora, alguns comportamentos xenófobos.

Teixeira Lopes, doutorado em sociologia e deputado do Bloco de Esquerda (BE), explica que a criação de estereótipos é um fenómeno “culturalmente normal”, que, geralmente, serve para antecipar o comportamento dos outros.

Como explica Texeira Lopes, “os alemães intervêm na história grega durante o século XX de forma muito intensa”, uma vez que invadiram o território grego, durante a segunda guerra mundial. “Se se juntar a invasão alemã, a colonização económica no século XXI e o forte nacionalismo da parte grega” estão reunidas as condições para tornar “o alemão como um invasor” e “opressor”, afirma. Segundo o deputado do BE, esta é uma situação “normal” dentro dos quadros culturais vigentes.

Portugal é um dos países, que, como a Grécia, se encontram numa crise económica com perspetivas de resolução a longo prazo. No entanto, na opinião de Teixeira Lopes, é muito difícil concluir que o panorama grego contagie o português, uma vez que as “variáveis são diferentes”.

O facto de Portugal não ter estado presente na segunda guerra mundial e de a crise grega ser “ainda mais profunda” que a portuguesa, alivia a perceção que os portugueses têm sobre as políticas alemãs e, como consequência, a forma como se encara o seu povo. Portugal tem “outros ingredientes”, como “a crise económica e o sentimento de que há um diretório alemão forte e opressor”, afirma.

http://jpn.c2com.up.pt/2012/05/03/europa_crise_gera_xenofobia_entre_gregos_e_alemaes.html

Período Entre Guerras: Crise de 1929 e Ascensão dos Totalitarismos

Crise de 1929

Do crash da Bolsa de Valores ao New Deal

Rodrigo Gurgel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Reprodução/Domínio Público

Desempregados fazem fila para receber refeição gratuita, em Detroit (EUA), 1930

O maior período de crise econômica mundial ocorreu entre os anos de 1929 e 1933. Atingiu, em primeiro lugar, a economia norte-americana, espalhando-se em seguida para aEuropa e os países da ÁfricaÁsia e América Latina.

Mas o que caracteriza uma crise econômica? Quais as conseqüências da crise de 29? E quais as causas?

Uma crise econômica é, basicamente, um desequilíbrio entre produção e consumo, quase sempre localizado em setores isolados da economia. Esses desequilíbrios sempre ocorreram, mesmo antes do capitalismo, quando acontecia, por exemplo, a escassez súbita de um bem, provocada, quase sempre, por fatores naturais (secas, inundações, epidemias, etc.) ou acontecimentos sociais (guerras, revoluções, etc.).

Na história do capitalismo, as crises econômicas se caracterizam, inicialmente, pelo excesso de produção em relação à demanda (há mais produtos do que consumidores dispostos a adquiri-los). Esse excesso de produção quase sempre ocorre, primeiro, no setor de bens de capital (bens que servem para a produção de outros bens, especialmente de consumo, como, por exemplo, máquinas, equipamentos, materiais de construção, instalações industriais, etc.), para depois migrar ao setor de bens de consumo (por exemplo, automóveis, eletrodomésticos, etc.). Em conseqüência, há uma queda brusca na produção, falência de empresas, desemprego em massa – e a conseqüente redução de salários, preços e lucros. 

Processo cíclico

Essas crises fazem parte do processo cíclico que o desenvolvimento econômico segue – um processo cíclico dividido em várias fases.

Imaginando que o processo de desenvolvimento tem uma linha de equilíbrio, a economia oscila, permanentemente, de um ponto abaixo dessa linha para um ponto acima. 

A economia não é, portanto, uma força estática, mas, sim, um conjunto de forças em movimento, produzindo riqueza e migrando de uma fase de recuperação para outra, de expansão, quando ocorre aumento dos investimentos, há maior número de empregos e a soma dos salários aumenta, provocando o crescimento do consumo. Surge, então, uma fase de prosperidade, o que muitos chamam de boom, uma expansão rápida e abrangente da atividade econômica.

A partir desse ponto, contudo, ocorre um aumento crescente dos preços, o mercado de capitais (constituído pelas bolsas de valores e instituições financeiras – como bancos e companhias de seguros -, responsáveis pela negociação de papéis como ações e títulos diversos) se desorganiza por algum motivo, e a economia entra numa fase de contração, com as taxas de crescimento decrescendo. 

A atividade econômica segue, então, para um ponto abaixo da linha de equilíbrio, o desemprego retorna, a capacidade produtiva cai e os investimentos se restringem. 

São, portanto, flutuações periódicas e alternadas de expansão e contração da atividade econômica (em um país ou conjunto de países), e podem ocorrer com diferentes intensidades. Podem ser curtas e de rápida recuperação – ou podem se estender por anos, gerando graves problemas sociais.

Crises fazem parte da economia. Sejam pequenos solavancos ou grandes terremotos, suas causas dividem os estudiosos – e suas conseqüências podem ser muito diferentes, pois dependem de como os governos e o próprio mercado reagem aos fatos.

Especulação, desconfiança e pânico

A crise de 1929 teve início no sistema financeiro (o segmento do sistema econômico formado pelo conjunto de instituições públicas e privadas especializadas em viabilizar a compra e venda de ações e títulos diversos), na chamada Quinta-Feira Negra, em 24 de outubro de 1929, que a história registra como um dia de pânico na Bolsa de Nova York.

Era um momento de euforia, de intensa especulação na Bolsa. Quando dizemos “especulação” nos referimos às operações financeiras que visam obter lucros com a compra e venda de papéis cujo valor oscila conforme o desempenho do mercado. Os valores desses papéis estavam em um nível elevadíssimo, despropositado, fora da realidade. 

De repente, naquela quinta-feira, 70 milhões de títulos foram jogados no mercado, mas não encontraram quem os comprasse. Sem demanda pelos papéis, os preços das ações e dos títulos em negociação despencaram, gerando uma inacreditável onda de desconfiança, completamente irracional, e produzindo uma reação em cadeia sem precedentes.

A desconfiança com os acontecimentos da Bolsa espalhou-se para outros ramos da atividade econômica, atingindo a produção. Os bancos congelaram os empréstimos, as fábricas começaram a parar por falta de crédito, a renda nacional passou a cair, a demanda se retraiu ainda mais, as empresas se viram com estoques enormes, os preços dos produtos caíram vertiginosamente e os lucros despencaram. 

A economia começou a ficar paralisada e, como uma bola de neve, as falências se sucederam e milhões de trabalhadores perderam os empregos.

Quando a crise atingiu proporções internacionais, o comércio mundial ficou reduzido a um terço do que era antes de 1929. No Brasil, o principal efeito da crise manifestou-se na queda vertical dos preços de café, levando o governo federal a comprar grande parte das safras e destruir 80 milhões de sacas do produto, para diminuir os estoques e tentar aumentar o preço.

Tentando proteger suas próprias economias, os países aumentaram as taxas alfandegárias, o que reduziu ainda mais o comércio internacional. E, em todas as economias, coube ao Estado instituir mecanismos para controlar a crise e reativar a produção. 

Roosevelt e o New Deal

Nos Estados Unidos, contudo, o presidente Herbert Hoover manteve-se inflexível, preferindo deixar que o próprio mercado se regulasse, auto-saneando seu desequilíbrio, uma tese defendida pelos liberais radicais, mas que provocou uma crise social sem precedentes. Só em 1933, com a eleição de Franklin Delano Roosevelt, é que se aplicou de forma contundente a intervenção do Estado na economia, por meio de um programa chamado New Deal.

O New Deal (numa tradução literal, “novo acordo”) surgiu com base no pensamento do economista John Maynard Keynes, segundo o qual, em determinados períodos, o Estado deve intervir na economia, regulando-a.

Foi o que Roosevelt fez, intervindo em todo o sistema produtivo. Primeiro, criou um audacioso plano de obras públicas, com o objetivo de garantir empregos à população. Depois, controlou o sistema financeiro e desvalorizou o dólar, para favorecer as exportações. Também criou a Previdência Social, a fim de proteger os trabalhadores, e a Administração de Recuperação Nacional, com o objetivo de induzir os empresários a estabelecer entre si acordos sobre preços, salários e programas de produção, eliminando a livre concorrência.

O controle estatal também se estendeu aos investimentos, pois os lucros das aplicações em ações, títulos ou fundos começaram a ser taxados. As horas de trabalho foram diminuídas e os salários tiveram de permanecer no mesmo patamar. Foi criado um salário mínimo nacional. Ao mesmo tempo, o governo assumiu as dívidas dos pequenos proprietários e ofereceu facilidades de crédito e prêmios para fazendeiros que alcançassem as metas de produção estabelecidas pelo Estado.

Ainda que tenha sofrido severas críticas, o plano de Roosevelt fortaleceu e consolidou o sistema capitalista nos EUA. Nos anos de sua aplicação, o grande capital passou por um intenso processo de desenvolvimento e concentração, enquanto pequenas empresas eram eliminadas ou absorvidas.

Mercado insaciável

Os estudiosos divergem em relação às causas do crash (colapso súbito e total) da Bolsa em 1929 e à crise que o sucedeu. Para alguns, a economia estava superaquecida, pois os empréstimos haviam saltado de 2 bilhões de dólares (em 1926) para quase 7 bilhões em outubro de 1929. Outros apontam para a alta dependência do consumo na economia norte-americana. E há também os que chamam a atenção para o fato de que a crise da economia teria começado bem antes do crash do mercado de ações, pois a produção da indústria já se encontrava em declínio (a produção de automóveis, por exemplo, declinara de 600 mil unidades em março de 1929 para 300 mil em outubro). 

Se não há um consenso sobre as causas, é certo que o mercado de ações se comportava de maneira esquizofrênica, alucinada e insaciável, sem atentar para a economia real. É como se os preços das ações estivessem muito acima do efetivo valor das empresas. O dinheiro, então, era desviado da produção para reforçar ainda mais os negócios com títulos ou ações, ou seja, para reforçar a especulação. 

De qualquer forma, o período de 1929 a 1933 deixa uma lição: os mercados vivem crises periódicas – e se não ocorrem respostas rápidas para os problemas, essas crises tendem a se alastrar, afetando vários setores da economia e podendo alcançar um poder de destruição em massa. 

Mas esses momentos de colapso, cuja vocação é se repetir de tempos em tempos, nos fazem lembrar do alerta de Adam Smith: “Examine os registros históricos, reúna o que aconteceu dentro do âmbito de sua própria experiência, considere com atenção qual tem sido a conduta de quase todos os grandes desafortunados, seja na vida privada ou na pública, sobre os quais você pode ter lido, ou dos quais pode ter ouvido falar ou ter se lembrado; e descobrirá que os infortúnios, em sua grande maioria, surgiram do fato de eles não saberem quando estavam bem, quando era melhor sentarem-se tranqüilos e ficar contentes”. 

Fontes

  • Manias, pânico e crashes – um histórico das crises financeiras, Charles P. Kindleberger, Editora Nova Fronteira.
  • Era dos extremos – o breve século XX, Eric Hobsbawm, Editora Cia. das Letras.
  • Novíssimo Dicionário de Economia, Paulo Sandroni, Editora Best-Seller, 2ª edição.
 

 

 

O Movimento Nazi-Fascista

Apregoando um intenso fervor nacionalista, o movimento fascista (do latim fascio = feixe), surgido em 1919, logo após o findar da Primeira Guerra Mundial, transformou-se num fenômeno político internacional. Tendo seu epicentro na Itália, mergulhada em profunda crise socio-política, dali o fascismo, tornado-se hegemônico sobre os demais partidos da ultra-direita, expandiu-se, com maior ou menor presença, por quase todo o mundo. No entanto, em cada lugar em que se organizou assumiu uma denominação, um líder e uma simbologia própria, que diferia das demais agremiações da mesma ideologia.

A militarização da política

No início os seus militantes e principais quadros partidários foram largamente preenchidos por ex-combatentes, por veteranos da Primeira Guerra Mundial, que se sentiram frustrados, excluídos, quando não traídos pelos governos do após-guerra. Dai entender-se que tanto os chefes do movimento nazi-fascista (como Hitler e Mussolini) como seus seguidores mais próximos serem oriundos das trincheiras, e que, mesmo na paz, continuavam usando uniforme e celebrando a vida de soldados. Comportavam-se eles como se ainda estivesse entre seus camaradas no fronte de guerra. O fascismo foi, portanto, uma militarização da política, a transposição para a vida civil dos hábitos e costumes adquiridos por uma geração inteira de europeus que passaram quatro anos da sua existência condicionados pela brutal experiência de uma guerra terrível.

Essa experiência militar deles fez com que os partidos fascistas não somente usassem uniforme e obedecessem ao seu chefe do mesmo modo que os soldados seguem o seu general, como entendessem a política como um campo de batalha, na qual seus adversários não era vistos como rivais num quadro eleitoral, mas sim inimigos a serem encarcerados ou eliminados no futuro. A militarização da vida política, com o partido organizado como fosse um regimento do exército, disciplinado e obediente à uma hierarquia, teve como conseqüência a determinação deles de submeterem a sociedade civil por inteiro às regras militares. O que conduziu a que levassem a quartelização da sociedade por inteiro. Entendiam que travavam agora, finda a guerra, uma batalha para salvar a pátria, a sua pátria, ameaçada pela subversão comunista (inspirada na revolução bolchevique que ocorria, desde 1917, na Rússia), e pela debilidade da democracia liberal, incapaz de concentrar a energia necessária para retirar a nação da profunda crise econômica e moral com que saíra da guerra.

 

Difusão pelo mundo

 

 

 
 

As ruas de Roma, de Munique, de Berlim, de Madri, e até do Rio de Janeiro, enchiam-se de desfiles cívicos de militantes que marchavam, embandeirados, aos sons marciais, enaltecendo o nacionalismo e os valores pátrios que, segundo os fascistas, foram esquecidos ou abertamente traídos no período do pós-guerra. Cada organização fascista tinha o seu símbolo, sua cor e seu líder absoluto: um chefe, um duce, um führer, um caudilho, um chefe, que comandava seus homens como um general em tempo de guerra, e a quem seus seguidores devotavam verdadeira idolatria, considerando-o uma espécie de salva-pátria. Obviamente que os fascistas detestavam a democracia.

 

Objetivos políticos e raciais

 

 

 
 

Tinham os nazi-fascistas como objetivo maior, deter a subversão social representada pelo comunismo. O nazi-fascismo transformou o bolchevismo no seu inimigo de morte e os comunistas não-soviéticos eram vistos como meros agentes a serviço do domínio mundial daquela potência. Pode-se dizer que o fascismo assumiu uma conotação mais radical exatamente nos países ou nas sociedades que se sentiam mais vulneráveis a uma revolução comunista. Naquelas em que a hierarquia social, os valores tradicionais e o ordenamento das classes, estavam mais sujeitos a serem derrubados. E, onde, no passado recente, a frustração ou a humilhação nacional sofrida na guerra ainda não fora esquecida. 

O nazismo, a vertente alemã do fascismo, elegeu ainda, como seu pior adversário, além dos já citados comunistas, os judeus. Seguidores da tradição anti-semita européia , atribuíam a eles todas as desgraças e vexações porque a Alemanha passara (a direita alemã debitou à derrota de 1918 aos comunistas e aos judeus que teriam dado “uma punhalada nas costas” do país). O violento anti-semitismo dele e sua política de defesa da eugenia – a obsessão pela pureza racial do homem ariano -, fez com que os nazistas terminassem por ordenar, entre 1939-45, o maior massacre de seres humanos até hoje registrado na história: o holocausto de todos os judeus europeus e o extermínio de todos aqueles que , segundo eles, “levavam uma vida indigna de ser vivida” (os loucos, menores excepcionais, portadores de males genéticos, idosos senis, etc.).

 

O fascismo americano

 

 

 
 
 

Incluiu-se também entre os fascismos, a forma peculiar com que ele surgiu e atuou nos Estados Unidos, majoritariamente nos estados do sul, por meio da organização secreta Ku Klux Klan, fundada a primeira vez em 1866-7 no Tennesse, e refundada em 1915, por William J.Simmons. Apesar de afirmar-se como um baluarte do cristianismo protestante, branco e anglo-saxão, e ser também anti-semita, os klanmen (como seus militantes eram denominados), que alcançaram a ser 5 milhões nos anos 20, concentraram o seu ódio nos negros americanos, incendiando suas igrejas comunitárias e promovendo brutais linchamentos. O líder supremo deles era denominado de Grande Mágico do Império (Great Wizard of Empire) e tinha ascendência sobre os demais chefes do Klan nos estados. Num deles o líder era designado como o Grande Dragão que chefiava um comitê de 8 Hidras que coordenavam a ação dos Ghouls, os vampiros, os que praticavam as atrocidades.

http://educaterra.terra.com.br/voltaire/seculo/2004/02/17/002.htm

PRINCIPAIS MOVIMENTOS FASCISTAS

   País

Ano

Denominação

    Líder

     Símbolo

  Cor

 

Itália

 

1919

 

Movimento fascista

 

  Benito Mussolini

 

     o fascio

 

 Negra

Alemanha

1919

Nacional-socialismo ( nazismo)

 Adolf  Hitler

    a cruz suástica

 Cáqui

 

Espanha

1933

Falange espanhola

 José Antônio

   lanças trançadas

 Azul

Brasil

1932   

Ação Integralista Brasileira

 Plínio Salgado

 

    o sigma (S)

 Verde

E.U.A.

1915

Ku Klux- Klan

 O Grande Mágico do

Império

  a cruz incendiada

 Branco

França

 

1927

Cruz de Fogo (Croix de feu)

 

 Cel. La Rocque

 

 

Portugal

 

1926

Estado Novo (União Nacional/

Nacional-sindicalismo

 Oliveira Salazar/Rolão Preto

 

 Azul

Romênia

 

1927

Guarda de Ferro

(Garda de Fier)

 C. Z. Codreanu/ Horia Sima/ Ion Antonescu

 

Verde

 

DICAS DE FILMES SOBRE O PERÍODO

Terra e Liberdade de 1995, dirigido por Ken Loach, com Ian Hart 
Libertarias, de 1996, com Ana Belén e Victoria Abril 
O Triunfo da Vontade de 1935, dirigido por Leni Riefenstahl 
Rosa Luxemburgo, de 1986, dirigido por Margarethe von Trotta.

Berlin Alexanderplatz (1980), de Rainer Werner Fassbinder 
A Noite dos Desesperados (1969), de Sydney Pollack 
Por Quem Os Sinos Dobram (1943), de Sam Wood 
Nosferatu, de Friederich W. Murnau 
Tempos Modernos, de Charles Chaplin 
O Ovo da Serpente, 1977 de Ingmar Bergman

 

 

A ditadura revisionada

02/05/2012

 

‘Auschwitz tropical’: símbolo do apoio privado à repressão

 

Em troca de créditos e facilidades junto à ditadura, uma usina de açúcar do Rio de Janeiro teria cedido seu forno para incinerar cadáveres de presos políticos mortos nas mãos do aparato repressivo. O acordo que teria sido feito no final de 1973, se comprovado, pode se tornar o símbolo mais abjeto de uma faceta sempre omitida nas investigações sobre a ditadura: a colaboração funcional, direta, não apenas cumplicidade ideológica e política, entre corporações privadas, empresários e a repressão policial, que envolveu inclusive empresas de comunicação. Um caso conhecido é o do jornal ‘Folha da Tarde’, da familia Frias, que teria cedido viaturas ao aparato repressivo para camuflar operações policiais. Entre as vítimas do suposto ‘Auschwitz tropical’ agora revelado estaria Ana Rosa Kucinski, irmã do jornalista e escritor Bernardo Kucinski, desaparecida em 1974. A informação, divulgada pelo site iG, consta do livro de um dos protagonistas da barbárie, o delegado do DOPS, Claudio Guerra, que mediou os serviços da usina e acaba de publicar um relato desse e de outros crimes.

Em ‘Memórias de uma guerra suja’, um depoimento a Rogério Medeiros e Marcelo Netto, Guerra afirma que pelo menos uma dezena de presos políticos brasileiros foram reduzidos a cinzas no imenso forno da Usina Cambahyba, localizada no município fluminense de Campos. Seu proprietário, um anti-comunista radical, Heli Ribeiro, era amigo pessoal de Guerra.

As vítimas do ‘crematório Cambahyba’, segundo o livro, seriam: João Batista e Joaquim Pires Cerveira, presos na Argentina pela equipe do delegado Fleury;– Ana Rosa Kucinsk e seu marido, Wilson Silva, “a mulher apresentava marcas de mordidas pelo corpo, talvez por ter sido violentada sexualmente, e o jovem não tinha as unhas da mão direita”; – David Capistrano (“lhe haviam arrancado a mão direita”) , João Massena Mello, José Roman e Luiz Ignácio Maranhão Filho, dirigentes históricos do PCB; – Fernando Augusto Santa Cruz Oliveira e Eduardo Collier Filho, militantes da Ação Popular Marxista Leninista (APML).

Informado hoje sobre a nova versão para o desaparecimento da irmã, Bernardo Kucinski não descarta a hipótese: “Nunca tinha ouvido isso antes, mas é verossímel: os precursores desse método foram os nazistas’, diz o jornalista, autor de um romance que leva o leitor a percorrer o outro lado igualmente cruel da tragédia: a labiríntica procura de um pai pela filha tragada no sorvedouro do aparato repressivo. “K”, publicado no ano passado pela Editora Expressão Popular, está na segunda edição com lançamentos previstos na Inglaterra e Espanha. Leia as resenhas de Flávio AguiarMarco Weissheimer e Eric Nepomuceno, publicadas em Carta Maior.

Bernardo recebeu a notícia sobre a versão de Guerra quando se preparava para prestar um depoimento à Promotoria Pública sobre o desaparecimento da irmã; uma rotina de dor e busca pela verdade que se arrasta por quase quatro décadas.

 

Ditadura tentou matar Brizola e culpar Igreja Católica

Assassinato não aconteceu, mas Cláudio Antônio Guerra revela que se disfarçou de padre durante ação contra ex-líder de esquerda

Tales Faria e Wilson Lima, iG Brasília | 03/05/2012 11:39:07 – Atualizada às 07/05/2012 15:27:07

Foto: AEBrizola entre Franco Montoro e Ruth Escobar cantam o Hino Nacional no Comício Pró-Diretas, em 1984

O ex-delegado do DOPS (Departamento de Ordem Político Social) do Espírito Santo, Cláudio Antônio Guerra, revela no livro “Memórias de uma Guerra Suja” que se disfarçou de padre para tentar assassinar Leonel Brizola, fundador do PDT e um dos líderes da resistência contra a ditadura militar. O disfarce era uma estratégia para responsabilizar a Igreja Católica pelo atentado.

 

Segundo Guerra, a operação foi comandada pelo coronel de Exército Freddie Perdigão (Serviço Nacional de Informações – SNI) e pelo comandante Antônio Vieira (Centro de Informações da Marinha – Cenimar). “Os militares também andavam muito aborrecidos com a Igreja Católica, que estava se alinhando à esquerda, pela abertura política”, afirma Guerra. Perdigão e Vieira também estavam à frente do atentado ao Riocentro.

Guerra levava também uma pasta com um revólver calibre 45. A arma era a preferida dos cubanos. A intenção também era ligar o governo de Fidel Castro ao assassinato. “Eu me lembro do boato de que Fidel Castro estava aborrecido por Brizola ter ficado com o dinheiro enviado por Cuba para financiar a guerrilha do Caparaó (o primeiro movimento de luta armada contra a ditadura militar). Os militares estimulavam esses boatos nos quartéis e entre nós”, revela Guerra. “Com o retorno de Brizola, os comentários sobre o dinheiro de Fidel apareciam aqui e ali”.

“O objetivo (do atentado) era implicar a Igreja Católica – resolveríamos dois problemas de uma vez só – e envolver os cubanos, insatisfeitos com a suspeita de desvio de verba para a guerrilha do Caparaó; daí a arma calibre 45”, aponta. “O objetivo, como sempre, era tumultuar o processo de redemocratização do Brasil”, reafirma o ex-delegado em depoimento ao jornalistas Rogério Medeiros e Marcelo Netto no livro que acaba de ser publicado pela editora Topbooks.

Plano

Ex-delegado do DOPS fala sobre atentado contra Brizola

A tentativa de assassinato ocorreu quando Brizola morava em Copacabana, no Rio de Janeiro. A data é incerta. Guerra conta que foi entre “a chegada dele do exílio, em 1979 e antes da demissão do chefe da Casa Civil, Golbery do Couto e Silva” em 1981. O ex-delegado afirma no livro que se hospedou no Hotel Apa, na rua República do Peru. O hotel existe até hoje. Ele se registrou com identidade e CPF falsos, concedidos pela Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro na época. “Quando precisava incorporar um personagem para realizar uma missão, eles forneciam tudo: CPF, identidade, tudo”, relata.

O ex-delegado revela no livro “Memórias de uma Guerra Suja” foi até a porta do prédio onde Brizola montado na garupa de uma moto conduzida pelo tenente Molina, um militar do Cenimar. Normalmente o líder de esquerda saía de casa “um pouco antes do meio-dia”, pelas informações do SNI repassadas ao ex-delegado do DOPS. Naquele dia, Brizola não desceu e o atentado foi abortado. “Havia o interesse da comunidade de informações em eliminar Brizola, só que depois houve um retrocesso, uma mudança”, afirma Guerra.

Brizola sofreu uma tentativa de assassinato no Hotel Everest, no Rio de Janeiro, em 18 de janeiro de 1980, quatro meses depois de chegar do exílio. Uma bomba foi deixada na porta do apartamento do líder de esquerda mas desativada em seguida.

*Colaborou Adriano Ceolin, iG Brasília

“Militantes de esquerda foram incinerados em usina de açúcar”

Delegado revela em livro que viraram cinzas os corpos de David Capistrano, Ana Rosa Kucinski e outros oito opositores da ditadura

Tales Faria, iG Brasília | 02/05/2012 10:15:28 – Atualizada às 04/05/2012 20:08:28

Foto: DivulgaçãoCapa de “Memórias de uma guerra suja”, da editora Topbooks

Ele lançou bombas por todo o país e participou, em 1981 no Rio de Janeiro, do atentado contra o show do 1º de Maio no Pavilhão do Riocentro. Esteve envolvido no assassinato de aproximadamente uma centena de pessoas durante a ditadura militar. Trata-se de um delegado capixaba que herdou os subordinados do delegado paulista Sérgio Paranhos Fleury nas forças de resistência violenta à redemocratização do Brasil.

– Leia também: Cláudio Guerra, um matador que se diz em busca de paz
– Veja todas as notícias na página do especial

Apesar disso, o nome de Cláudio Guerra nunca esteve em listas de entidades de defesa dos direitos humanos. Mas com o lançamento do livro “Memórias de uma guerra suja”, que acaba de ser editado, esse ex-delegado do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) entrará para a história como um dos principais terroristas de direita que já existiu no País.

Mais do que esse novo personagem, o depoimento recolhido pelos jornalistas Marcelo Netto e Rogério Medeiros, ao longo dos últimos dois anos, traz revelações bombásticas sobre alguns dos acontecimentos mais marcantes das décadas de 70 e 80.

Revelações sobre o próprio caso do Riocentro; o assassinato do jornalista Alexandre Von Baumgarten, em 1982; a morte do delegado Fleury; a aproximação entre o crime organizado e setores militares na luta para manter a repressão; e dos nomes de alguns dos financiadores privados das ações do terrorismo de Estado que se estabeleceu naquele período.

Leia também: “Delegado Fleury foi morto por militares”

A reportagem do iG teve acesso ao livro, editado pela Topbooks. O relato de Cláudio Guerra é impressionante. Tão detalhado e objetivo que tem tudo para se tornar um dos roteiros de trabalho da Comissão da verdade, criada para apurar violações aos direitos humanos entre 1946 e 1988, período que inclui a ditadura militar (1964-1988).

David Capistrano, Massena, Kucinski e outros incinerados

Cláudio Guerra conta, por exemplo, como incinerou os corpos de dez presos políticos numa usina de açúcar do norte Estado do Rio de Janeiro. Corpos que nunca mais serão encontrados – conforme ele testemunha – de militantes de esquerda que foram torturados barbaramente.

“Em determinado momento da guerra contra os adversários do regime passamos a discutir o que fazer com os corpos dos eliminados na luta clandestina. Estávamos no final de 1973. Precisávamos ter um plano. Embora a imprensa estivesse sob censura, havia resistência interna e no exterior contra os atos clandestinos, a tortura e as mortes.”

Os dez presos incinerados
— João Batista e Joaquim Pires Cerveira, presos na Argentina pela equipe do delegado Fleury;
— Ana Rosa Kucinsk e Wilson Silva, “a mulher apresentava marcas de mordidas pelo corpo, talvez por ter sido violentada sexualmente, e o jovem não tinha as unhas da mão direita”;
— David Capistrano (“lhe haviam arrancado a mão direita”) , João Massena MelloJosé Roman eLuiz Ignácio Maranhão Filho, dirigentes históricos do PCB;
— Fernando Augusto Santa Cruz Oliveira e Eduardo Collier Filho, militantes da Ação Popular Marxista Leninista (APML).

O delegado lembrou do ex-vice-governador do Rio de Janeiro Heli Ribeiro, proprietário da usina de açúcar Cambahyba, localizada no município de Campos, a quem ele fornecia armas regularmente para combater os sem-terra da região. Heli Ribeiro, segundo conta, “faria o que fosse preciso para evitar que o comunismo tomasse o poder no Brasil”.

Cláudio Guerra revelou a amizade com o dono da usina para seus superiores: o coronel da cavalaria do Exército Freddie Perdigão Pereira, que trabalhava para o Serviço Nacional de Informações (SNI), e o comandante da Marinha Antônio Vieira, que atuava no Centro de Informações da Marinha (Cenimar).
Afirma que levou, então, os dois comandantes até a fazenda:

“O local foi aprovado. O forno da usina era enorme. Ideal para transformar em cinzas qualquer vestígio humano.”

“A usina passou, em contrapartida, a receber benefícios dos militares pelos bons serviços prestados. Era um período de dificuldade econômica e os usineiros da região estavam pendurados em dívidas. Mas o pessoal da Cambahyba, não. Eles tinham acesso fácil a financiamentos e outros benefícios que o Estado poderia prestar.”

A primeira confissão do atentado ao Riocentro

Ex-delegado do DOPS conta ter participado atentado, dá nomes dos chefes militares da operação e conta o que deu errado

Tales Faria, iG Brasília | 02/05/2012 12:02:51 – Atualizada às 02/05/2012 18:51:51

“Participei do atentado ao Riocentro (durante as comemorações do Dia do Trabalhador, em 1981) e fiz parte das várias equipes que tentaram provocar aquela que seria a maior tragédia, o grande golpe contra o projeto de abertura democrática”, revela o ex-delegado Cláudio Guerra, do DOPS (Departamento de Operações Políticas e Socias), no livro “Memórias de uma guerra suja”.

O depoimento aos jornalistas Rogério Medeiros e Marcelo Netto, que acaba de ser publicado pela editora Topbooks, é a primeira confissão de participação no atentado feita por um integrante das forças de resistência á redemocratização do país no final da década de 70.

Foto: Agência O GloboNo Riocentro, bomba explodiu antes da hora do atentado previsto e matou agente de informações do Exército

Cláudio Guerra conta que a bomba explodiu por engano no colo do sargento Guilherme Pereira do Rosário por um erro do capitão Wilson Luís Chaves Machado, que dirigia o Puma onde os dois estavam:

“Aquela bomba era uma das três que deveriam explodir no show. O capitão Wilson estacionou o veículo embaixo de um fio de alta tensão e a carga elétrica desse fio, a energia que passava em cima do Puma, fechou o circuito da bomba, provocando a explosão. O erro foi do capitão. (…) Eu era especialista em explosivos.”

O ex-delegado dá os nomes dos comandantes da operação, “os mesmos de sempre”:

O coronel de Exército Freddie Perdigão (Serviço Nacional de Informações); o comandante Antônio Vieira (Cenimar); e o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra (comandante do Departamento de Operações de Informações do 2º Exército – DOI-Codi).

Quanto à sua equipe, a missão seria prender esquerdistas que seriam responsabilizados pelo atentado: “Fui para lá com uma lista de nomes.”

Mas deu tudo errado. Com a explosão da bomba no Puma, os militares policiais civis e os policiais civis que levavam outras duas bombas abortaram a operação.

“O destino daquela bomba era o palco. Tratava-se de um artefato de grande poder destruidor. O efeito da carga explosiva no ambiente festivo, onde deveriam se apresentar uns oitenta artistas famosos, seria devastador. A expansão da explosão e a onda de pânico dentro do Riocentro gerariam consequências desastrosas. Era evidente que muitas pessoas morreriam pisoteadas.”

Segundo conta Cláudio Guerra, a coordenação feita pelo pessoal de inteligência havia mandado suspender todos os serviços de apoio do Riocentro, incluindo o policiamento e a assistência médica, para que não houvesse socorro imediato às vítimas. Até as portas de saída foram trancadas e placas de trânsito com siglas da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) haviam sido pichadas para dar a entender que se tratava de uma ação da esquerda.

Chefes do atentado ao Riocentro mataram Baumgarten

Dono da revista “O Cruzeiro” foi morto como queima de arquivo, segundo conta ex-delegado do DOPS Cláudio Guerra

Tales Faria, iG Brasília | 02/05/2012 14:19:48 – Atualizada às 02/05/2012 18:53:48

Os mesmos comandantes do Riocentro mandaram executar o jornalista Alexandre Von Baumgarten, em 1982, revela o ex-delegado do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) do Espírito Santo Cláudio Guerra, no livro “Memórias de uma guerra suja”.

Leia também: A primeira confissão do atentado ao Riocentro

Cláudio Guerra conta que ele próprio foi encarregado inicialmente do assassinato. O plano era simular uma morte natural, aplicando em Baumgarten uma injeção com a substância letal. A perícia, combinada, apontaria como causa da morte um infarto comum.

Foto: DivulgaçãoDelegado Cláudio Guerra: Baumgarten foi morto como queima de arquivo

Segundo o relato do ex-delegado aos jornalistas Marcelo Netto e Rogério Medeiros, que acaba de ser publicado pela Editora Topbooks, a ordem de matar Baumgarten, dono da revista Cruzeiro, “partiu do SNI (Serviço Nacional de Informações) de Brasília”.

À época, a Agência Central do SNI, em Brasília, era chefiada pelo general Newton Cruz. E Cláudio Guerra teria sido escalado para o assassinato – chamado de Operação Dragão – pelos seus dois chefes diretos: o coronel de Exército Freddie Perdigão (Serviço Nacional de Informações) e o comandante Antônio Vieira (Cenimar).

O ex-delegado dá os nomes dos comandantes da operação, “os mesmos de sempre”:

Ambos haviam sido, ainda segundo o ex-delegado, os comandantes do atentado do Riocentro, junto com o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra (comandante do Departamento de Operações de Informações do 2º Exército – DOI-Codi).

“Ele (Baumgarten) ia morrer porque era um arquivo vivo. Recebia dinheiro para apoiar o governo militar, por meio do trabalho na revista. Mas, por várias razões, os militares perderam a confiança nele e decretaram sua morte. Por mais recursos que ele recebesse, queria sempre mais e mais. A ambição o transformou num chantagista.”

Confira: “Militantes de esquerda foram incinerados em usina de açúcar”

Cláudio Guerra conta que juntou três homens de sua equipe e, um mês antes do desaparecimento de Baumgarten, abordaram-no numa rua do Rio de Janeiro e o imobilizaram.

“Anunciei um assalto, a injeção estava comigo, mas não consegui aplicar. Baumgarten reagiu, gritou que estava sendo assassinado e acabou atraindo a curiosidade das pessoas que passavam. Tivemos que abortar a operação.”

Pouco tempo depois, o técnico da antiga Companhia Telefônica do Rio de Janeiro (Telerj) Heráclito Faffe, que trabalhava em escutas para o SNI, morreu de edema pulmonar após uma estranha tentativa de assalto em Copacabana.

O livro “Dos quartéis à espionagem: caminhos e desvios do poder militar”, de José Argolo e Luiz Alberto Fortunato, relata que Faffe chegou a ser atendido por médicos e contou que seus agressores aplicaram-lhe uma injeção nas nádegas.

Troca de comando na operação

Segundo Cláudio Guerra, depois de outra tentativa mal sucedida, o coronel Perdigão informou que a Operação Dragão passaria para ser feita por militares e por um médico.

“Apanharam Baumgarten e a esposa na região serrana do Rio. Ela ficou refém e ele foi para a Polícia Federal, com o delegado Barrouin”.

Cláudio Barrouin Mello foi vice-presidente do Sindicato dos Delegados Federais do Rio de Janeiro e ficou conhecido ao comandar a operação que culminou na morte do banqueiro do bicho Toninho Turco. Morreu em 1998.

Comissão da Verdade: Nomes ainda não foram escolhidos

Conta Cláudio Guerra que os assasinos de Baumgarten levaram a vítima para alto-mar. A função do médico era fazer uma incisão no seu abdomem para liberar gases e evitar que boiasse. Mas o corpo apareceu na praia. E o delegado diz ter ouvido de Perdigão e Vieira que foi por erro do médico.

“Antes que eu me esqueça: o médico que abriu a barriga do Baumgarten chamava-se Amílcar Lobo”, conta o ex-delegado.

Amílcar Lobo, tempos depois, teve seu registro médico cassado por ter participado de sessões de tortura no regime militar. Seu codinome era “Doutor Carneiro”

 

 

 

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 http://ultimosegundo.ig.com.br/politica/2012-05-03/ditadura-tentou-matar-brizola-e-culpar-igreja-catolica.html

http://ultimosegundo.ig.com.br/2012-05-02/claudio-guerra-um-matador-que-se-diz-em-busca-da-paz.html

http://ultimosegundo.ig.com.br/politica/2012-05-02/militantes-de-esquerda-foram-incinerados-em-usina-de-acucar.html

http://ultimosegundo.ig.com.br/politica/2012-05-02/a-primeira-confissao-do-atentado-ao-riocentro.html

http://ultimosegundo.ig.com.br/politica/2012-05-02/chefes-do-atentado-ao-riocentro-mataram-baumgarten.html

Os Medici: a grande família

Como os banqueiros Medici transformaram Florença, uma das mais tradicionais repúblicas da Itália, em seu domínio pessoal – e ajudaram a criar o esplendor do Renascimento

Reinaldo José Lopes | 20/07/2009 11h43

Em 1434, o banqueiro quarentão Cosimo de Medici fez uma entrada exuberante em Florença. Queria mostrar que estava de volta à sua cidade, motivo de infortúnio para seus inimigos, que seriam banidos. Começava ali o principado dos Medici, a grande família burguesa, patrona das artes e das letras, que comandou Florença e depois a Toscana até 1737, com breves intervalos. Cosimo havia passado um ano exilado em Veneza, acusado de tentar instaurar um governo tirânico. Mas a maioria ignorava essas suspeitas, porque as ruas ficaram lotadas de gente festejando seu retorno. “Raramente um cidadão voltando em triunfo de uma vitória foi recebido por seu país com tantas demonstrações de júbilo. Todos o saudavam como benfeitor do povo e Pai da Pátria”, escreveu Nicolau Maquiavel, político e intelectual florentino.

Maquiavel, que chegou a ser preso e torturado a mando dos descendentes de Cosimo, antes de se dedicar a escrever sobre o banqueiro, sabia perfeitamente que aquela recepção calorosa tinha marcado o começo do fim para o governo republicano em Florença. Devagarzinho, usando seus vastos recursos financeiros para apadrinhar a classe média nascente e se aliar aos poderosos, dentro e fora da Itália, os Medici deixaram de ser homens de negócios e viraram uma dinastia.

As outras grandes famílias de Florença até espernearam, voltando a expulsar os netos de Cosimo da cidade mais de uma vez. Mas só adiaram o inevitável: o domínio dos Medici durou quase 300 anos e moldou boa parte da Itália renascentista. De certo modo, os Medici fundaram a primeira grande instituição financeira multinacional do planeta e foram um bocado hábeis em usar o poder econômico para mandar e desmandar na política, na arte e até na religião. Um modelo que, afinal, está na base de quase todos os Estados modernos do Ocidente.

Por baixo dos panos

Embora pioneiros nesse tipo de articulação política e ideológica, os Medici não foram um caso isolado na Itália do Renascimento. “O fenômeno, na verdade, é comum nessa época. O que diferencia os Medici talvez seja o método relativamente não-violento de ascensão ao poder, através do qual eles foram erodindo, de forma muito lenta e contínua, as instituições republicanas de Florença”, avalia o historiador Manfredi Piccolomini, professor da Universidade da Cidade de Nova York e diretor do Medici Archive Project, que estuda a documentação deixada pela família, boa parte inédita. De certa maneira, Cosimo e companhia começaram como “zebras” da política florentina. A família, originalmente ligada à fabricação e ao comércio de tecidos, não era nem a mais rica nem a mais influente de Florença. Alguns dos Medici caíram na besteira de apoiar, no fim do século 14, a chamada Revolta dos Ciompi, cujo objetivo era dar direitos políticos aos que trabalhavam na manufatura da lã. A revolta foi suprimida, mas o envolvimento provocou o isolamento da família das relações de poder na cidade por décadas.

Nessa época, segundo Piccolomini, as repúblicas italianas tinham um regime baseado nos chamados checks and balances (restrições e contrapesos). “É uma herança da tradição política romana, cujo principal objetivo é impedir que qualquer pessoa obtenha o poder supremo”, diz. O mando era loteado entre os membros das guildas, corporações profissionais que reuniam banqueiros, negociantes, donos de manufaturas e artesãos, afirma Rita de Cássia Biason, professora de Ciência Política da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Franca.

Em tese, todo integrante de guilda com mais de 30 anos e sem dívidas podia ser eleito, por sorteio, para cargos públicos como a signoria, principal magistratura, com nove vagas. Mas só um quarto dos postos era ocupado pelas guildas menores, da classe média baixa. Ou seja, na prática, o regime era uma oligarquia comandada pelos ricos. Nesse sistema, até formar partidos políticos era proibido.

Abertamente, os Medici não se arriscavam a traçar alianças, mas, por baixo dos panos, Giovanni di Bicci, pai de Cosimo, usou o banco recém-fundado da família para forjar uma rede internacional de contatos. E também casou seus parentes de ambos os sexos com membros de famílias mais pobres, mas poderosas. Cosimo continuou a política, oferecendo empréstimos para cidadãos endividados, de forma que, quando fossem eleitos, apoiassem os interesses dos Medici. “Era uma rede informal, mas muito eficaz, de clientelismo”, escreve o historiador britânico J.R. Hale em Florence and the Medici (“Florença e os Medici”, inédito no Brasil).

A reação não tardou. Famílias aristocráticas conseguiram engendrar o exílio de Cosimo, mas o tiro saiu pela culatra, porque elas também tentaram um expurgo dos aliados do banqueiro que revoltou a população. A insatisfação dos florentinos abriu caminho para o retorno triunfal de Cosimo. Oficialmente, pouca coisa mudou na república, mas o banqueiro virou a eminência parda por trás de quase todas as decisões governamentais, além de ser responsável pela política externa.

Nesse ponto, o banco foi um instrumento importante, diz Biason. “O relacionamento com outros Estados europeus se construiu por meio das casas bancárias nos principais centros comerciais do continente: Londres, Nápoles, Colônia, Genebra, Lion, Roma, Avignon, Bruges, Antuérpia, Veneza, entre outras.” Os Medici davam um jeitinho de ter pessoas favoráveis a seus interesses no governo, manipulando os nomes que eram colocados nas borse, os sacos de onde eram sorteados os ocupantes dos cargos públicos.

Arte e gastança

A aprovação pública era tão grande que ninguém se opôs, quando esse poder de influência na cidade passou para o filho de Cosimo, Piero (que viveu apenas mais cinco anos após a morte do pai), e, logo depois, para Lorenzo, neto do Pai da Pátria. Atualmente conhecido como “o Magnífico”, Lorenzo levou ao auge a primeira fase do governo dos Medici em Florença, em 1469. Culto, interessado em filosofia, poesia e nas demais artes, ele também era um diplomata nato. Trouxe os melhores artistas da época para Florença e fortaleceu a economia local. Piccolomini diz que descobertas recentes nos arquivos mostram as boas relações da família, nessa época, com a comunidade judaica. “Eles atraíram ativamente comerciantes e banqueiros judeus para Florença.”

Mas casa de ferreiro, espeto de pau. A fortuna dos banqueiros Medici tinha se tornado tão lendária na Europa que todo mundo esperava os gastos mais extravagantes deles – inclusive os aliados de Florença, que adquiriram a mania de contrair (e não pagar) empréstimos, a fundo perdido. Para não perder prestígio, Lorenzo manteve a gastança. O banco acabou falindo e desaparecendo em 1494, dois anos depois da morte do Magnífico.

A aristocracia de Florença finalmente se cansou de ser manipulada pela família e tentou assassinar Lorenzo e seu irmão Giuliano, em 1478. O segundo morreu, e o primeiro sobreviveu para reprimir com violência os rebeldes. Mas, assim que Piero, filho do Magnífico, assumiu o poder, os inimigos aproveitaram um descuido seu – uma desastrada negociação territorial com a França – para declarar um novo exílio da famiglia, em 1494.

Nossa pessoa

A coisa não ia ficar assim, porém. Um filho de Lorenzo e um filho de Giuliano eram cardeais e começaram a mover o vasto arsenal de dinheiro e aliados da Igreja renascentista contra a república restaurada, representada pela velha aristocracia das guildas e, em menor proporção, da classe média. Em 1512, Florença foi derrotada por um exército papal e teve de aceitar Giovanni, o filho do Magnífico, como chefe de Estado informal. Um ano depois, ele foi eleito papa Leão X.

De repente, tanto os Estados papais quanto Florença tinham se tornado um feudo dos Medici, se não no papel, ao menos de fato. “Ser papa era estar à frente de um dos Estados mais fortes da Itália. Fonte de mais poder e também instrumento de manutenção da condição de senhores de Florença”, afirma Carlo Gabriel Pancera, professor de Filosofia Política da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste). Por isso, o domínio dos Medici parecia assegurado quando Giulio, o outro cardeal da dinastia, tornou-se o papa Clemente VII.

Uma última chance para os republicanos de Florença veio em 1527. A quebra da aliança entre o papa e o comandante do Sacro Império Romano-Germânico, Carlos V, levou à captura e ao saque de Roma pelas forças imperiais. Mas a situação não durou muito, e Alessandro, bisneto do Magnífico, foi empossado como duque de Florença – a primeira vez que o domínio da cidade pela famiglia era associado a um título de nobreza. Assassinado, o duque não deixou herdeiros legítimos, mas um obscuro Medici também chamado Cosimo, descendente do irmão do Cosimo “Pai da Pátria”, imediatamente tomou seu posto no governo (como Cosimo I). Uma vez no poder, revelou-se durão e excelente administrador, conquistando a cidade de Siena e unificando toda a região em torno de Florença no chamado Grão-Ducado da Toscana.

Cosimo I não tinha a menor paciência para os vestígios republicanos que ainda resistiam em seu domínio. Discutindo o esboço de uma pintura que retratava a captura de Siena, observou ao pintor Giorgio Vasari: “Os conselheiros que você colocou em torno de nossa pessoa [destaque para o plural majestático], quando você representa nossas deliberações sobre o ataque a Siena, não são em nada necessários, uma vez que tomamos todas essas decisões sozinhos. Você pode preencher o lugar deles com personagens representando o Silêncio e outras Virtudes”. O estilo autoritário deu tão certo que os Medici só perderam o poder, em Florença e na Toscana, quando morreu o último membro da dinastia, Gian Gastone, em 1737. O que sobrou da famiglia? As obras de arte financiadas por seu dinheiro e seu gênio, que ainda fazem de Florença uma das cidades mais belas da Europa.

Longa é a arte, tão breve a vida
O Renascimento foi o legado mais duradouro desses banqueiros

Todos os ícones da arte do Renascimento – Donatello, Fra Angelico, Michelangelo, Leonardo da Vinci, Boticelli, Rafael, além de cientistas como Galileu Galilei e Evangelista Torricelli (dois dos pais da Física moderna) – foram, em algum momento da vida, favorecidos pelo mecenato dos Medici. Só essa lista já seria ampla o suficiente, levando-nos do começo do século 15 ao fim do século 16, uma das fases mais extraordinárias da história da arte. Seja em Florença, como governantes, seja em Roma, como papas, os Medici encomendaram obras de importância vital para a cultura do Ocidente. “É claro que, em parte, esse apoio às artes era uma forma de exibir poder econômico. Mas também uma maneira de mostrar que, com os Medici, Florença abandonava totalmente o passado e se voltava para um futuro brilhante”, afirma o especialista italiano Manfredi Piccolomini. Alguns, aliás, eram artistas de talento, como Lorenzo, o Magnífico, considerado excelente poeta, e Leão X, músico. O Magnífico foi um dos fundadores da Academia Platônica de Florença, grupo de estudos que incluía até refugiados de Constantinopla, então recém-conquistada pelos turcos. O próprio Nicolau Maquiavel, antes inimigo político da famiglia, buscou a atenção dos Medici. O livro O Príncipe é dedicado a Lorenzo, neto do Magnífico.

Igreja no bolso
Os papas da família fizeram política, mas cometeram erros

A decisão de Lorenzo, o Magnífico, de fazer seu filho Giovanni (o do meio) cardeal, alçado ao posto de papa Leão X, em 1513, alinhou a Igreja no combate às forças que se opunham aos Medici, em Florença. E fez da Igreja uma vocação política na família. Mas a passagem dos Medici pelo papado foi marcada por dois desastres: a rebelião do monge alemão Martinho Lutero contra o catolicismo e a transformação da Inglaterra num país protestante. “Muita gente criticou Leão X por participar de um baile de máscaras em Roma, enquanto Lutero explicava sua posição contra o papado diante do imperador Carlos V, em 1521”, escreve J.R. Hale em seu livro Florence and the Medici. O papa excomungou Lutero, mas não deteve a Reforma. Noutro erro grave de avaliação, deu ao rei inglês Henrique VIII, o mesmo que iria romper com a Igreja Católica, o título de Defensor da Fé, porque o monarca escreveu um livro atacando Lutero. Pois foi Clemente VII, o segundo Medici a virar papa, que recusou a anulação do casamento do rei – que criou, então, a Igreja da Inglaterra. A carreira dos Medici no papado chegou a um fim melancólico no século 17, com a eleição de Leão XI. O “papa lampo”, ou papa-relâmpago, morreu apenas um mês depois de indicado ao posto.

Saiba mais

LIVROS

Florence and the Medici, J.R. Hale, Sterling USA, 2001

Clássico sobre a família e a cidade de Florença, que dá destaque às transformações políticas e sociais trazidas pelo governo da dinastia.

Abril Sangrento: Florença e o Complô contra os Medici, Lauro Martines, Imago, 2003

A tentativa de assassinar Lorenzo de Medici e a perseguição política que se seguiu ao ataque.

 

 

http://guiadoestudante.abril.com.br/estudar/historia/medici-grande-familia-485434.shtml

O olhar de Leonardo Da Vinci

Ele turbinou a renascença e, de quebra, inventou um mundo que só nasceria 5 séculos depois de sua morte. Conheça o verdadeiro código de Da Vinci

por Texto Thereza Venturolli

A cena acontece em Milão, Itália, numa madrugada de 1489: na bancada do necrotério de um hospital, jaz um corpo cuja pele fora totalmente retirada, deixando à mostra os músculos, nervos e parte do esqueleto. Baldes, bacias, panos e instrumentos de corte sujos de sangue e outros fluidos corporais estão espalhados pelo chão da sala mal iluminada. Ao lado da bancada, um homem de 40 anos lança um último olhar para o cadáver esfolado e para a folha de papel com a série de ilustrações que acabou de desenhar. Sorri, satisfeito com o resultado. Apesar de ter feito tudo com pressa (para que o corpo não começasse a se decompor na cara dele), conseguiu terminar ilustrações inéditas, que mostram feixes de músculos e tendões se entrelaçando nos ossos dos ombros, braços, peito e pescoço. Em vários ângulos. Antes de guardar o desenho, o homem faz uma última anotação ao pé da folha: “Este conhecimento é tão necessário ao desenhista quanto é para o gramático saber a origem das palavras”.

Essa não era a primeira nem a última vez que Leonardo da Vinci faria uma dissecação humana. Ao longo da vida, ele contabilizaria mais de 30 madrugadas de vigília na companhia do que ele próprio chamou de “apavorantes corpos esquartejados”. Ainda assim, a vontade de conhecer o corpo humano até a última entranha superava qualquer calafrio. Não se tratava de uma curiosidade mórbida. Leonardo entendia que a anatomia, tanto quanto a geometria, era peça fundamental da pintura. Ele acreditava que, para representar a realidade com exatidão, era preciso observá-la com rigor científico – numa época em que a ciência propriamente dita ainda nem existia, diga-se. E observar foi o que Da Vinci fez de melhor. Graças à capacidade de aprender a ver, o mestre renascentista adquiriu um conhecimento profundo da natureza. E, com seu talento, deixou para a posteridade alguns dos maiores legados artísticos e científicos da história.

Da ciência à arte(e vice-versa)

Leonardo di Ser Piero da Vinci nasceu em 1452, no vilarejo de Anchiano, do lado de fora dos muros do castelo da então República de Florença, na Itália. Filho ilegítimo de uma mendiga e de um escrivão respeitado na elite florentina, foi criado pelo pai, que teve sensibilidade para identificar os excepcio-nais dons artísticos do garoto e recursos para desenvolvê-los.

Ainda adolescente, Leonardo foi enviado para trabalhar como aprendiz no estúdio do grande desenhista Andrea del Verrochio. E o garoto de Anchiano impressionou desde o começo – conta a lenda que, ao desenhar um anjo num dos quadros de Verrochio, Leonardo demonstrou ser tão melhor que o mestre que este desistiu de pintar de uma vez por todas. Verdade ou não, o fato é que se tratava do lugar ideal para a formação de um jovem talento da pintura. O estúdio de um artista na Florença no século 15 funcionava como uma oficina, onde o profissional orientava uma equipe de iniciantes na execução de obras por encomenda.

Se o espaço era propício, o tempo não ficava atrás. Quando Da Vinci tinha 1 ano de idade, os turco-otomanos tomaram Constantinopla, afugentando pensadores e artistas em enxame para o rico norte da Itália. Eles chegavam carregados de manuscritos sobre a geometria e a arte na Grécia antiga, e deram o tiro de partida na corrida de transição da Europa medieval para a do Renascimento. A história virava uma esquina e essa esquina era Florença – justamente o lugar onde ele desenvolveu boa parte de sua carreira. E Leonardo seguiu a tradição de seu tempo: buscar a representação fiel da natureza usando todo o conhecimento possível como ferramenta, fosse a matemática, a medicina ou o que mais aparecesse. Mas no centro de tudo, segundo Da Vinci, estava algo mais simples: o olhar.

Para ele, os olhos eram a principal via do conhecimento – o que fazia da pintura a mais elevada de todas as artes. “A visão se deixa iludir menos do que qualquer outro sentido”, escreveu.

pintor, então, deveria explorar ao máximo a capacidade que os olhos têm de perceber a luz e as sombras, a posição e a distância, o movimento e o repouso das coisas. E Leonardo explorou tudo o que podia de seus olhos. De suas observações sobre os efeitos da atmosfera sobre uma paisagem, criou normas rigorosas de perspectiva. Definiu, por exemplo, o quanto a imagem dos objetos ao fundo de uma cena deveria ter as cores e os contornos suavizados para passar a impressão de profundidade. Tudo com uma precisão matemática. Ele ainda observou atentamente os movimentos do mundo – da água, das nuvens, das folhas, dos animais e, claro, do homem. Além dos desenhos de anatomia humana, fez dezenas de esboços de cavalos galopando, gatos repousando e cães se coçando. Enfim, em nome da arte, Da Vinci tirou de cada momento da vida uma cena digna de ser representada em detalhes. Para ele, a pintura era uma ciência.

Esse jeito científico de ver a arte levou o autor de Mona Lisa e A Última Ceia a colecionar uma gama enciclopédica de interesses ao longo dos anos – uma característica que o transformou naquele mito que todo mundo conhece: o de homem mais completo que já passou pela Terra. Mitos pecam pelo exagero. Mas, convenhamos, no caso de Da Vinci, fica difícil derrubar a fama. Além de pintor, Leonardo acabou sendo escultor, arquiteto, anatomista, engenheiro, botânico, zoólogo, geólogo, físico, poeta, músico, inventor, piadista, cozinheiro etc. etc. etc. – e parece que era bonitão e cantava bem (!).

Mas seu grande atributo talvez tenha sido outro: “Ele foi o maior curioso da história”, escreveu o historiador inglês Kenneth Clark, autor de uma das mais respeitadas biografias de Da Vinci. De fato. Leonardo nunca deixava de questionar o como e o porquê das coisas.

Seus documentos de anatomia, por exemplo, não registram apenas a aparência e as proporções do corpo humano, mas preocupam-se também com seu funcionamento. Questões do tipo “que tendões movem o braço?”, “como os dois olhos se movem ao mesmo tempo?”, “como se produz um sorriso?”, “como surge um novo ser no ventre de uma mulher?” aparecem com freqüência no verso de seus manuscritos, como lembretes sobre quais seriam seus objetos de pesquisa seguintes. Ele realmente não parava quieto: mesmo nas cenas mais cotidianas, sempre tinha alguma coisa que atiçava sua curiosidade. Tanto que, um dia ele escreveu em um de seus vários caderninhos de anotações: “Por que os cães farejam espontaneamente o traseiro uns dos outros?” A resposta, logo abaixo, fica entre o fato científico – “o faro é um sentido muito importante para os cães” – e o humor irreverente – “se o traseiro tiver algum resquício do aroma de carne, significa que o cão pertence a um dono de posses e, portanto, merece respeito. Caso contrário, trata-se de vira-lata, e pode, portanto, ser mordido”. Hoje conhecem-se mais de 7 mil páginas ilustradas e manuscritas, com anotações como essas, e tratados sobre anatomia, hidráulica, biologia, geometria, mecânica, matemática e medicina. E especialistas na vida do homem multitarefa calculam que existam outras milhares perdidas.

Ironicamente, tal vitalidade intelectual e amplidão de interesses eram, também, uma maldição. O tempo gasto numa observação tão detalhada da natureza fez com que Leonardo raramente concluísse o que havia começado. Vários manuscritos e projetos foram interrompidos – às vezes no estágio de simples esboço, outras vezes, no meio de uma frase – sem jamais serem retomados. Sua própria produção como pintor foi prejudicada por esse vício de ver. Conhecem-se hoje apenas 17 pinturas dele. Nesse sentido, Da Vinci foi mais um homem de planos e sonhos do que de realizações. Ainda assim, personificou o ideal renascentista do homem completo mais do que qualquer um de seus contemporâneos. E olha que entre esses contemporâneos estavam Michelangelo, Rafael, Boticelli…

Mão na massa

Nem só de arte viveu a Renascença. A revolução cultural – impulsionada pela prensa de tipos móveis de Gutenberg e pelas grandes navegações – acelerou o intercâmbio de idéias e o desenvolvimento de novas tecnologias. Nesse contexto, as repúblicas da Itália, constantemente ameaçadas de invasão, abri-ram espaço para uma nova profissão – a de engenheiro civil e militar.

Engenhosidade, você sabe, era o que não faltava a Leonardo. E tem mais uma coisa: para os ricos, investir em tecnologia valia mais a pena do ponto de vista econômico do que patrocinar a arte. Então, fosse por necessidade de sobrevivência, fosse por frenesi criativo, Da Vinci não poderia ficar fora dessa onda tecnológica. E ele serviu à nobreza italiana como arquiteto e engenheiro por anos. Projetou edifícios públicos, pontes, canais, fortalezas, armas. Mas sua capacidade de aprender com a observação do mundo e sua incrível imaginação o levaram mais longe ainda – a pelo menos 4 ou 5 séculos à frente de seu tempo. O ponto é que ele não se ateve só a resolver problemas do cotidiano. Se com a ciênciao homem era capaz de compreender o mundo, com a tecnologia ele poderia dominá-lo. Leonardo entrou fundo nessa idéia: quis fazer com que o homem voasse e pudesse viver debaixo d’água. E acabou desenhando coisas que só virariam realidade nos séculos 19 e 20 – máquinas voadoras, pára-quedas, escafandros, submarinos… Profético.

Só que a maior parte dessas idéias visionárias jamais se concretizou, e justamente por causa do descompasso entre a mente do criador e a capacidade tecnológica da Renascença. Os veículos que ele projetou, por exemplo, não tinham uma fonte de energia que os impulsionasse – faltava alguém para inventar o motor a combustão interna…

Alguns de seus projetos de arquitetura sofriam do mesmo “mal”: eram ousados demais para as técnicas de construção da época. Esse é o caso da ponte encomendada ao artista em 1502 pelo sultão de Istambul para atravessar um vão de 350 metros sobre o canal de Bósforo, na Turquia. Da Vinci desenhou uma ponte de pedra, com um único arco que deveria se estender por 250 metros sobre a água. Mas os construtores duvidaram que o projeto fosse realizável. O projeto de Da Vinci teve de esperar até 2001 para sair do papel. A ponte cruza hoje uma rodovia, numa cidadezinha próxima de Oslo, na Noruega. Leonardo jamais viu o novo mundo que sonhava criar com seus projetos.

Leonardo aproveitou bem tudo o que viu na vida, menos a velhice e a proximidade da morte. Depois de passar 3 anos em Roma – que, apesar da intensa atividade artística, não lhe ofereceu trabalho nenhum –, Da Vinci aceitou o convite de Francisco 1º e se mudou para a França, em 1516, com o título pomposo de “primeiro pintor, arquiteto e engenheiro do rei”. Era agora um homem beirando os 65 anos, que tinha a mão direita paralisada e o espírito ressentido e enciumado do sucesso de seus pares mais jovens, como Michelangelo e Rafael. Passou os 3 últimos anos de vida recluso num chalé confortável, próximo ao palácio de verão da realeza, organizando seus escritos, anotando pensamentos e rabiscando um ou outro teorema de geometria. A morte encontrou, num dia de maio de 1519, um pessimista angustiado com a idéia de que a alma, fosse lá o que fosse, só poderia existir num corpo vivo. Para Da Vinci , o Universo seria regido por leis harmoniosas – vida e morte se complementariam. E ele tinha consciência de que não estava imune a essas leis: “Quando pensava estar aprendendo a viver, eu também estava aprendendo a morrer”.

Razão e sensibilidade

Com imagens hiper-realistas, ele criou a literatura científica moderna. Os desenhos de Da Vinci são revolucionários porque não servem só de apoio aos textos. Eles carregam toda a informação. Quer dizer: além de tudo, ele ainda inventou o infográfico! 3. A mania por detalhes também ajudava na hora de registrar expressões faciais, como as da Madonna Litta, aqui ao lado. O fundo da cena, aliás, mostra como ele dominava outra técnica: a de dar profundidade à paisagem suavizando suas cores e contornos.

Qual é a sua, Mona?

Essa moça parece ora doce, ora esquiva, ora dissimulada. Tudo graças a um truque que Leonardo usava como ninguém: o sfumato – a coisa de borrar, esfumaçar, o contorno das figuras para dar efeitos inusitados. O sorriso enigmático da Mona Lisa vem daí. Não dá pra ver com nitidez o canto esquerdo dos lábios dela, certo? Então o estado de espírito da garota é aquele que a sua cabeça quiser ver na hora.

Para saber mais

Leonardo da Vinci,

Keneth Clark, Penguin Books

http://www.museoscienza.org/english/leonardo/invenzioni.html,

Site com réplicas das invenções de Leonardo

Meninos do Contestado

Às vésperas do centenário da guerra, o Estado apresenta uma investigação jornalística que traz as memórias de infância de três brasileiros que sobreviveram à maior rebelião civil do século 20

Arte/estadão.com.br

Meninos do ContestadoPara recontar a Guerra do Contestado (1912-1916), o repórter especial da Agência Estado Leonencio Nossa e o repórter fotográfico Celso Júnior consultaram 13 caixas de documentos militares produzidos durante o conflito. Mais de dois mil papéis e 87 fotografias foram reproduzidos.

Nossa e Celso Júnior – que no ano passado ganharam seis prêmios com o caderno especial Guerras Desconhecidas do Brasil, publicado pelo Estado em 19 de dezembro de 2010, outra reportagem investigativa com viés histórico – também consultaram coleções de periódicos da Biblioteca Nacional, do Rio de Janeiro, e processos de terras dos cartórios de registros de Lebon Régis e Porto União, em Santa Catarina.

Foi com base na análise do acervo militar, em especial no olhar das crianças prisioneiras retratadas em antigas fotografias, que a reportagem do jornal percorreu cidades e povoados de Santa Catarina e do Paraná, num total de 8,5 mil quilômetros de estradas, para colher a versão cabocla da história e conhecer o legado deixado pelo conflito. Remanescentes da revolta e descendentes de rebeldes que lutaram contra os militares dão sua versão ou apresentam o imaginário popular dos fatos descritos em documentos militares. Eles falam também da vida atual. As impressões sobre a realidade do Contestado e a coleta de histórias orais foram obtidas em cem dias de trabalho de campo, além da análise das ações e repasses de verbas do governo para as cidades da região.

Para localizar as “crianças” do Contestado, o Estado recorreu a cinco rádios da região, sistemas de som de postes, blogs comunitários, pequenos jornais, comunidades religiosas e cartórios de registro civil de várias cidades.

As referências bibliográficas deste trabalho são os livros Lideranças do Contestado, de Paulo Pinheiro Machado, Messianismo e Conflito Social, de Maurício Vinhas de Queiroz, Contestado, a Guerra Cabocla, de Aureliano Pinto de Moura, e Guerra do Contestado: A Organização da Irmandade Cabocla, de Marli Auras.

Leia abaixo as reportagens:

Linha de trem chega ao Contestado, expulsa caboclos e dá início a uma guerra
O País no tempo do Contestado
Os personagens do Contestado
Para militares, jagunços não eram revolucionários e sim bandidos
‘O pessoal ouvia de longe as cornetas’, diz agricultora
Rio Negro, uma cidade dividida
Antes da chegada do general Setembrino, rebeldes obtiveram algumas vitórias
Esquecida, região ainda vive em clima de miséria
Contestado, a região Nordeste de Santa Catarina
Para os militares fanatismo, para rebeldes a salvação
O caso do mágico com a virgem
‘Jagunços eram os pistoleiros da Lumber’, diz radialista
Exército recorre aos ‘vaqueanos’ para terceirizar a batalha
Primeiro aviador de guerra brasileiro morre antes do ataque final
Enquanto companheiros se rendem, o rebelde Adeodato forma Santa Maria
Militares destroem o reduto de Tavares e cercam Santa Maria
‘Um dia é pouco para eu contar tudo o que vivi’, diz Maria Trindade Martins
Os motivos políticos da guerra: ‘a terra não tinha valor’
Capitão comanda marcha de 10 dias
‘Eu vivia bem quando tinha meu pai’, diz Altino Bueno da Silva
Então jovens oficiais, Lott, Euclides e Dutra lutaram no Contestado
‘Se um pai não dava a filha, eles matavam’, diz Sebastiana Medeiros
‘Implorou-me respeito à virgindade da mocinha’, escreveu oficial
Após vitória, militares caçam líder dos rebeldes até a rendição
Só sobraram as costureiras e os meninos
Discriminação social marca geração pós-guerra
Um sonho difícil de realizar
Participação de negros no conflito reascendeu o ódio e trouxe de volta a época escravocrata
A polêmica união de Adeodato com Mariazinha
Nos anos 90, projeto de pesque e pague em Santa Maria fracassa
Sem médicos, famílias ainda recorrem aos ‘mágicos’
Empresário norte-americano ficou milionário construindo ferrovias fantasmas
Depois de cem anos, os caboclos voltam para os trilhos
Exército conclui extermínio dos ‘defensores’ da monarquia
Líderes da repressão foram ‘lavar roupa suja’ em público

http://topicos.estadao.com.br/contestado