Qual o sentido da Guerra?

“Os animais lutam, mas não fazem guerra. O homem é o único primata que planeja o extermíno dentro de sua própria espécie e o executa em grandes dimensões. A guerra é uma de suas invenções mais importantes: a capacidade de estabelecer acordos de paz é uma conquista posterior. As mais antigas tradições da humanidade, seus mitos e lendas heróicas, falam sobretudo da morte e do ato de matar.

(ENZENSBERGER. Hans Magnus, Guerra Civil. São Paulo, Companhia das Letras, 1995)

 

[…] a guerra não consiste apenas na batalha, ou no ato de lutar, mas num lapso de tempo durante o qual o desejo de rivalizar através de batalhas é suficientemente conhecido.[…]”

(HOBBES, Thomas. Leviatã. Coleção Os pensadores. São Paulo, Abril Cultural, 1979)

 

“Passávamos (eu e minha mãe) (…) pois eu queria mostrar-lhe algo na vitrina da livraria (…). Então veio ao nosso encontro um grupo de oficiais franceses em seus uniformes vistosos. Alguns deles tinham dificuldade para caminhar, os outros se adaptavam aos passos daqueles; paramos para deixá-los passar vagarosamente. ‘Foram gravemente feridos’, disse minha mãe, ‘estão na Suíça para se restabelecerem. Foram trocados por alemães’. E já vinha do outro lado um grupo de alemães, também entre eles alguns usando muletas, e os outros retardando o passo por causa deles. Lembro-me ainda, como o medo me paralisou. O que acontecerá agora? Eles se lançarão uns contra os outros? Em nossa perplexidade não nos desviamos a tempo, e de repente estávamos envolvidos pelos dois grupos que queriam passar. Estávamos sob as arcadas e havia espaço suficiente, mas vimos seus rostos de perto, ao darem passagem uns aos outros. Nenhum rosto estava desfigurado pelo ódio ou raiva, como eu temia. Eles se olharam calma e amistosamente, como se nada estivesse acontecendo. Alguns se saudaram. Eles andavam muito mais devagar do que as outras pessoas, o que me pareceu uma eternidade. Um dos franceses ainda se virou, agitou sua muleta no ar e gritou para os alemães, que já haviam passado: ‘Salut!’. Alguém poderá pensar, ao ouvir esse relato, que as muletas foram sacudidas ameaçadoramente, mas de forma alguma foi este o caso; eles, como saudação, mostraram um ao outro o que lhes sobrara em comum: muletas. Minha mãe havia subido na calçada e, parada diante da vitrina, me dava as costas. Vi que ela tremia; aproximando-me dela, olhei-a de esguelha; ela estava chorando. Fingimos que olhávamos a vitrina; eu não disse uma palavra. Quando ela se controlou, voltamos para casa, em silêncio. Nunca falamos daquele encontro.”  (CANETTI, Elias. A língua absolvida. São Paulo, Companhia das Letras, 1987)

 

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