Desmundo

Título original: (Desmundo)

Lançamento: 2003 (Brasil)

Direção: Alain Fresnot

Atores: Simone Spoladore, Osmar Prado, Berta Zemei, Beatriz Segall.

Duração: 100 min

Gênero: Drama

Desmundo

Quando ninguém era inocente

 

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Um mundo de desbravadores. Homens de grande coragem e enorme valor, que abandonaram sua terra de origem e viajaram para terras habitadas por animais selvagens e bugres (índios) hostis. Sua contribuição, de valor inestimável, permitiu que o Brasil e o restante das Américas se integrasse ao mundo civilizado e muito mais evoluído que existia na Europa da modernidade.

A primeira vista, os cem anos iniciais de colonização da América e do Brasil em particular, nos parecem nas descrições das aulas de história como um período monótono, de poucas realizações. Fala-se, por exemplo, no fracasso das Capitanias Hereditárias, na instalação de engenhos de açúcar, na chegada dos negros para trabalharem como escravos, das tentativas de invasões francesas,…

Tudo parece um tanto quanto insosso, sem graça, sem sabor.

Parecemos nos esquecer que não havia qualquer traço do Brasil que conhecemos hoje naqueles tempos. No século XVI o Brasil era uma terra praticamente virgem, usada em pequena escala por poucos índios que por aqui plantavam mandioca, caçavam, pescavam e viviam de forma idílica, como a reproduzir a idéia do paraíso perdido na terra, sem pudor e sem pecado.

Quando os europeus por aqui chegaram, diferentemente do que pensamos, não vieram trazendo o melhor de sua civilização no convés de seus navios…

Vinham os “náufragos, traficantes e degredados” aos quais se referiu Eduardo Bueno em um de seus best-sellers a respeito dessa primeira parte de nossa história colonial. Homens rudes, tão selvagens quanto os mais temíveis dos verdadeiros brasileiros, os índios. Pessoas inescrupulosas, violentas e que vinham para a América em busca de oportunidades derradeiras de sobreviver, de resistir e, de preferência, de ganhar algum dinheiro.

“Desmundo”, do cineasta Alain Fresnot, nos coloca em sintonia com a realidade desse Brasil do século XVI, desconhecido de muitos. Um país literalmente “bronco”, um tanto quanto bárbaro. Tão viril e embrutecido que o filme, apesar de belíssimo, muito bem filmado, com reprodução de época esmerada e atores de primeiríssima qualidade, não foi bem aceito pelo grande público.

Costumo dizer a meus alunos que o cinema glorifica e embeleza a história. Princesas e príncipes não eram tão belos, tão saudáveis quanto às produções européias e norte-americanas querem nos fazer crer. Tinham doenças que os debilitavam seriamente e viviam freqüentemente não mais que 30 anos. Não tomavam banho regularmente, não cuidavam dos dentes, apresentavam um forte cheiro corporal,…

Fresnot teve a ousadia de retratar o século XVI como um período em que os personagens eram toscos, rudimentares. Ao tirar o glamour da maquiagem dada pelo cinema, criou uma verdadeira pérola, um filme digno de ser visto e revisto. Mais um gol de placa do cinema nacional.

O Filme

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Os primeiros portugueses que se estabeleceram no Brasil, além de uma origem duvidosa, provenientes muito mais do limbo do que do luxo das cortes, viveram uma experiência das mais desgraçadas entre as muitas que são contadas a respeito de nosso país. Tinham que “mostrar os dentes” o tempo todo, mostrando força e se apegando as leis de sobrevivência na selva (literalmente) para poderem conquistar terras, domar o gentio (negros da terra) e estabelecer produção.

Caçar índios, diga-se de passagem, mais que necessidade se tornou negócio lucrativo nesses primeiros tempos. Supria as necessidades de um país onde inexistiam braços para manter o esforço das lavouras que brotavam em vários cantos. Cumpria-se também uma função “civilizatória” ao colocar os “negros da terra” em contato com a religião católica.

As índias, além de tudo, supriam as necessidades sexuais dos europeus que haviam se instalado nessas terras sem a companhia de suas esposas ou de qualquer outra mulher branca. Alain Fresnot nos convida a examinar a história das mulheres que eram “importadas” da Europa para se casar com os “fidalgos” locais.

A personagem central, Oribela (numa notável performance de Simone Spoladore) é uma dessas órfãs, recolhidas pelas ruas, pelos abrigos dos sem-teto e sem-família ou nos conventos. Vem ao Brasil para se casar com Francisco (Osmar Prado, assustador e muito convincente), um desses degredados que se dignificou com as terras e escravos que adquiriu por aqui.

O embate entre Oribela, religiosa fervorosa educada num convento, e o violento e grosseiro Francisco, foco central da narrativa, fica ainda mais complexo com a entrada em cena do mercador e cristão-novo (judeu convertido ao catolicismo, por força da necessidade) Ximeno Dias (Caco Ciocler), por quem Oribela demonstra simpatia…

Forte e provocante, o filme nos convida a uma reflexão a respeito desse primeiro Brasil dos portugueses. Imperdível!

Aos Professores

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1- É interessante tentar fazer uma ponte entre “Desmundo” e a minissérie “A Muralha”, da TV Globo, que nos colocou em contato com o Brasil dos bandeirantes. Em ambos os casos, a intenção dos realizadores era a de nos colocar num tempo cujos registros, escassos, dão margem à criação de uma realidade menos dolorosa que aquela realmente vivida pelas pessoas dos séculos XVI e XVII. Pensando nisso, os produtores se esforçaram para compor um quadro mais amargo, viril e embrutecido da vida no Brasil de então. Vale comparar e traçar paralelos para tentar averiguar quem conseguiu mostrar melhor esse Brasil tão rude.

2- Os livros de Eduardo Bueno, criticados por alguns historiadores puristas, colocaram a história do Brasil desse período em destaque. Evidenciaram nossas origens relacionando-as a bandidos, órfãos, degredados e amotinados, pessoas sem escrúpulos que para cá vinham em busca de oportunidades derradeiras de se recuperar. Trabalhar alguns textos dos livros desse autor como elementos que permitam um aprofundamento em relação aos acontecimentos descritos no filme “Desmundo” é essencial para que os estudantes compreendam que a narrativa relaciona-se com a realidade pesquisada daquele período.

3- Vivemos numa sociedade que ainda preserva entre suas bases o patriarcalismo. A família atual, especialmente nos grandes centros, parece cada vez mais distante dessa realidade, onde o pai concentra os poderes, as responsabilidades e exige em troca, a submissão dos demais membros da família a suas demandas e exigências. “Desmundo” trabalha esse tema e pode servir para que façamos uma revisão do patriarcalismo e para que possamos pesquisar a forma como as famílias brasileiras se organizam atualmente.

4- Que tal fazer um levantamento do trabalho de reprodução de época desenvolvido em “Desmundo”? Verifiquem os figurinos, as construções, as armas e os utensílios e procurem livros que apresentem imagens que reproduzam o período em que a trama se desenvolve. Monte quadros comparativos e painéis onde as imagens do filme possam ser colocadas lado a lado com as ilustrações disponíveis nos livros. Enumerem os acertos e os erros cometidos pela produção.

João Luís de Almeida Machado Doutor em Educação pela PUC-SP; Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP); Professor Universitário e Pesquisador; Autor do livro “Na Sala de Aula com a Sétima Arte – Aprendendo com o Cinema” (Editora Intersubjetiva).

http://www.planetaeducacao.com.br/portal/artigo.asp?artigo=168

2 comentários sobre “Desmundo

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