Nação Pernambuco

Sempre em luta contra o poder constituído, os herdeiros dos Guararapes se sentem diferentes do resto do país. Bem melhores, por sinal.
Lorenzo Aldé
No ponto onde os rios Capibaribe e Beberibe se encontram para formar o Oceano Atlântico, deu-se a guerra que fundou o Brasil. E se você duvida disso é porque, no fundo, deve ter inveja dos pernambucanos.

O ego inflado do povo que hoje habita o cenário das Batalhas dos Guararapes já foi incorporado ao folclore local. É aquilo que os pesquisadores chamam de nativismo, o orgulho da gente do lugar, que se sente diferente (e bem melhor, por sinal) do resto do país e do mundo. Diz a lenda que certa vez, ao arrumar as malas para uma viagem à França, Gilberto Freyre recebeu um conselho de sua mãe:

— Meu filho, não vá alardear muito por lá o fato de ser pernambucano.
— Mas por que, maínha? Se tanto me orgulho disso…
— É para não acharem que você está querendo humilhar os franceses.

Pode ser apenas uma anedota que se vale do nome de um dos grandes intelectuais da terra. Mas o nativismo é fato comprovado por vários estudiosos, como um sentimento que perdurou fortemente até meados do século XIX, e não sem justos motivos. Há que se reconhecer que a história pernambucana é pródiga em singularidades. Por um quarto de século (1630-1654), a capitania foi ocupada por holandeses, em um modelo de colonização bastante diferente do português. A expulsão dos invasores deu-se ao preço de violentas batalhas. De volta ao domínio lusitano, mal se passou uma década e os locais se rebelaram também contra este poder: em 1666, o governador nomeado pela Corte, Jerônimo de Mendonça Furtado, foi posto para correr pelos senhores de engenho do pedaço. Se não dava para conviver com os holandeses, também não era fácil aturar as ordens de Lisboa.

“A expulsão dos holandeses teve causas religiosas e de descontentamento cultural. Mas sempre houve uma reserva dos grupos dominantes em relação a Portugal e ao Império”, resume o historiador Evaldo Cabral de Mello, a maior autoridade no assunto. No livro A outra independência, ele mostra como a vinda da Corte para o Brasil, em 1808, inflamou ainda mais esta insatisfação. O Rio de Janeiro se tornou a mais portuguesa das cidades e despertou ressentimento nas outras províncias. A diferença é que, enquanto o Sul e o Sudeste experimentaram os benefícios do desenvolvimento econômico puxado pela capital, aos habitantes do Norte restaram os altos impostos que não revertiam em benefícios para eles — iam todos custear a nobreza e a burocracia do governo central. Motivo suficiente para um povo se aperrear. E eles se aperrearam, levando a cabo duas grandes revoltas que, se vitoriosas, poderiam ter separado de vez os destinos de Pernambuco e do resto do Brasil: a Revolução Pernambucana (1817) e a Confederação do Equador (1824). De cunho federalista, elas defendiam o poder local e a autonomia das províncias.

Pernambuco não seria mais Brasil. Mas, e daí? “Se a unidade nacional teria sobrevivido a esta prova? Não sei. Hoje a unidade nacional se tornou um valor máximo, o único em que a esquerda e a direita não se desentendem. Mas as pessoas da época não pensavam assim. A decisão de D. Pedro I não estava preocupada com isso, só foi o mais conveniente para o esquema de poder deles”, alega Evaldo.

Além do moral da tropa, essas derrotas feriram o orgulho nativo no que ele tem de mais precioso: o território. Após 1817, perderam a área do atual estado de Alagoas. Após 1824, foi-se a comarca do São Francisco, hoje oeste baiano. O que atiçou também uma mágoa regional. “A Bahia sempre foi a favor do poder. Toda revolução pernambucana eles suprimiam”, queixa-se o historiador.

No século XX, já vivendo sob um ideário nacional, as disparidades regionais herdadas do Império não desapareceram. Pelo contrário, se aprofundaram com a industrialização e geraram, depois de intensos fluxos migratórios populares, o preconceito contra o nordestino que se verifica ainda hoje nos estados mais ricos. Se isso manteve vivo ou reforçou o nativismo contemporâneo, é pura especulação. Ainda não há estudos demonstrando esta relação de causa e efeito. Mas o forte egocentrismo manifestado por dez entre dez pernambucanos, ainda que recheado de bom humor, deixa margem para a hipótese. Até porque os habitantes de hoje recorrem naturalmente ao passado quando chamados a explicar o porquê de se acharem um povo tão especial.
“O fato histórico mais importante foi não termos nos rebaixado à Coroa. Por isso pegaram nossas terras. Nós, pernambucanos, não abríamos mão dos nossos direitos, das nossas lutas. Os baianos abriram, por isso ganharam um pedação de terra”, diz a cineasta Luci Alcântara, lembrando que não se registra em Recife nenhuma rua ou praça batizada em homenagem a D. Pedro I, grande vilão dessa expropriação de território. Luci está finalizando um filme em que investiga justamente a megalomania pernambucana. O título já está decidido: “O melhor documentário do mundo”. Em quase uma década de pesquisas, ela se divertiu coletando casos e curiosidades sobre a inigualável auto-estima de sua terra.

Você sabia que foram os pernambucanos que fundaram Nova York? Expulso após a Batalha dos Guararapes, um grupo de judeus (que havia criado em Recife a primeira sinagoga das Américas) rumou para a “Nova Amsterdã”, que estava sob controle da Companhia das Índias Ocidentais. Lá, eles criaram a primeira sinagoga dos Estados Unidos e deram início à construção daquela que hoje pode ser considerada a capital do mundo. Uma bela história para se gabar, desde que se releve o fato de que a localidade já existia, e cresceu depois graças a um diversificado conjunto de colonos. Evaldo Cabral de Mello ri desse exagero, mas não deixa de contribuir para o orgulho do seu povo: “Comparada a Recife, Nova York na época era uma aldeia”.

O maior, o melhor, o primeiro… A lista do narcisismo nativo, compilada por Luci Alcântara, não caberia inteira nestas páginas. Com perdão das omissões, eis alguns inquestionáveis motivos para o pernambucano amar a si mesmo sobre todas as coisas: o maior festival de cinema em número de espectadores, a mais antiga Orquestra Sinfônica do Brasil, a primeira emissora de rádio e o mais antigo jornal em circulação da América Latina, o primeiro provedor de Internet do Brasil, a mais antiga escola pública, a primeira escola de formação de professores, o primeiro curso de Direito, as primeiras mulheres bacharéis, a maior livraria em número de títulos, a mais antiga igreja do Brasil, o primeiro trem urbano da América Latina, o primeiro pouso do Zepelim no Brasil, o primeiro túnel, a maior ciclovia em linha reta, a maior avenida em linha reta, o primeiro observatório astronômico das Américas, o maior bloco carnavalesco do mundo. Até o “melhor paraíso da Terra”, Fernando de Noronha, pertence a eles.

E nem tente questionar alguma de suas verdades. “O carnaval em Recife não existe de tão bom”, empolga-se a cineasta. “Ele é do povo na rua, não é como o de Salvador ou o do Rio, onde as pessoas têm que comprar lugares para assistir de camarote”. Espera aí, pensa logo um carioca: mas faz tempo os blocos de rua no Rio vêm crescendo também. A resposta sai na lata: “Os blocos cariocas foi a gente que inventou. Eu sei porque morava no Rio na década de 80. Participei da fundação do Suvaco do Cristo, o primeiro deles, junto com o Lenine e o Lula Queiroga”, sacramenta. E acrescenta outro dado curioso mencionado por muitos conterrâneos: o hábito de ostentar a bandeira do estado em ocasiões festivas, como o Carnaval e jogos de futebol. Nenhum outro estado faz isso. E só outros dois também têm bandeiras revolucionárias até hoje: Minas (da Inconfidência) e Rio Grande do Sul (Farroupilha). A de Pernambuco foi concebida na Revolução de 1817.

Nesse espírito ufanista é encenada a cada dois anos a peça “Batalha dos Guararapes: Assim nasceu a pátria”, nos montes onde ocorreu a vitória sobre os holandeses. Não é uma peça qualquer, claro: trata-se de uma superprodução, com 50 atores e 230 figurantes (todos pernambucanos, a maioria moradores da comunidade), que atrai um público de 40 mil pessoas. As proporções rivalizam com a tradicional Paixão de Cristo encenada na Páscoa em Nova Jerusalém, a 180 quilômetros de Recife (“o maior teatro ao ar livre do mundo”). José Pimentel, roteirista e diretor da “Batalha dos Guararapes”, aliás, representava o papel de Cristo na outra encenação, antes que ela passasse a recorrer a atores da Rede Globo, nacionalmente conhecidos. Em resumo: Jesus desceu da cruz para expulsar os holandeses!

Brincadeiras à parte, a Batalha dos Guararapes é tida como o momento fundador da identidade nacional.  E esta não é uma interpretação exclusiva do povo local. Em 1994, o general Zenildo Lucena decretou oficialmente o dia 19 de abril, data da primeira Batalha dos Guararapes, como Dia do Exército. Vá lá que o general seja pernambucano, mas o decreto vincula o nascimento de uma instituição nacional a um período em que a idéia de nação estava longe de existir. Por que, então, escolher Guararapes e não, por exemplo, a guarda que acompanhou a vinda de D. João, momento inaugural de instituições permanentes de defesa que depois se transformariam no Exército? Talvez porque a carga simbólica da batalha pernambucana seja muito mais sedutora para uma idéia de nação: o derramamento de sangue de três raças unidas para enfrentar o invasor. Termos que aparecem em Gilberto Freyre na década de 1940, mas já ecoavam no imaginário pernambucano e influenciaram a geração de intelectuais que no século XIX, após a independência, esforçou-se para conceber os símbolos do estado recém-criado. “É uma construção histórica daquele momento. É fruto da criação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), em 1838, e está na teoria de historiadores como Varnhagen e Capistrano de Abreu. Mas eu, como historiador, não posso negar que é uma tese falsa. A palavra pátria, no século XVII, é de caráter local, não nacional. O estado burguês é criado no XIX, a partir da Revolução Francesa”, argumenta o capitão Francisco José Corrêa Martins, chefe da Divisão de História do Arquivo Histórico do Exército.

O historiador militar faz, no entanto, uma ressalva que é válida: “A mitologia de formação do estado não é só coisa de brasileiro, é mundial. A questão do herói vem desde a Grécia Antiga; é um paradigma, um modelo a ser seguido. Quer pior exemplo que El Cid, herói da Espanha, que lutou do lado dos muçulmanos e cristãos? Todo e qualquer herói é ser humano, tem carne, osso e sentimentos”.

Humano era também João Fernandes Vieira, um dos líderes da expulsão dos holandeses. Antes de se engajar na luta contra os invasores, Vieira devia muito a eles. Literalmente. Das autoridades estrangeiras obteve a oportunidade de comprar dois engenhos a prazo. Havia muitas terras desocupadas, depois que seus proprietários fugiram para a Bahia por causa da invasão. Com a queda do preço do açúcar, pesadamente endividado, o luso-brasileiro (nascido na Ilha da Madeira) passou a ter interesse pessoal na expulsão dos holandeses, seus antigos aliados.

A balança que oscilava entre benesses holandesas ou portuguesas permanece viva na “pernambucanidade” atual. Pelo menos um holandês é visto com imenso carinho até hoje: Maurício de Nassau. E não há quem negue uma certa nostalgia no ar quando se fala sobre o período de dominação estrangeira. Como se, por trás da glória dos Guararapes, houvesse certo arrependimento. “Como estaríamos hoje se os holandeses não tivessem sido expulsos?” Segundo o jornalista Xico Sá, esta é uma pergunta que ronda as mesas de bar do Recife. Afinal, Nassau implementou na cidade “a primeira experiência de cultura urbana na América portuguesa”, nas palavras de Gilberto Freyre.

A Holanda era a maior economia do mundo, uma potência comercial e naval durante todo o século XVII. Não à toa, a colonização da Companhia das Índias Ocidentais trouxe benefícios inéditos para Recife e teve um caráter francamente cosmopolita: os estrangeiros que chegavam queriam habitar a cidade, a ponto de faltarem leitos para todos, enquanto a ocupação do campo nunca vingou a contento. Em contraste, Salvador, na mesma época, era uma cidade que vivia às moscas: os senhores de engenho cuidavam apenas de suas moradias rurais, verdadeiros feudos.

Ainda que a situação das ex-colônias holandesas não seja muito animadora hoje em dia (Suriname, Indonésia…), o passado cosmopolita precoce pode ter influenciado a formação de um élan, se não pernambucano, ao menos recifense. “Recife é uma coisa, o Nordeste é outra. Sempre foi assim: uma cidade liberal, republicana, inovadora, aventureira, em oposição à massa rural arcaica”, atesta Evaldo Cabral de Mello.

Uma curiosidade: o diplomata e historiador vive há décadas longe de sua terra natal. Se tem tanta aversão à “cidade portuguesa” que hospedou a Corte, por que vive no Rio de Janeiro? A resposta não poderia ser mais recifense: “Sou sempre contra a cidade em que estou morando. Foi assim nos vários países por onde passei. Me irritei com os portugueses, me irritei com os espanhóis, com os ingleses. Se voltar para o Recife, vou ficar antipernambucano. Prefiro ser anticarioca”.
Eita, povo amostrado!

Lorenzo Aldé é jornalista da Revista de História da Biblioteca Nacional

http://www.revistadehistoria.com.br/v2/home/?go=detalhe&id=1514

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