A miragem dourada que fascinou nobres e comerciantes europeus

Segue texto que aborda um pouco o uso das especiarias e algo mais.

 

 


Bem antes da criação das companhias, navios mercantes de todas as bandeiras se lançavam em expedições longínquas. Desde o século II, o imperador da China enviava caravanas que, ao passo lento de 50 a mil camelos, partiam de Touen-Houang e chegavam, por um caminho ou por outro, ao Mediterrâneo. Seus carregamentos faziam muita gente sonhar, já que esses países banhados pelo oceano Índico e pelo mar da China eram um Éden riquíssimo e quase inacessível aos ocidentais.

Nos mapas-múndi de Jacomo, geógrafo do rei de Aragão, figuravam estas palavras perto do cabo Noun, no Marrocos: “Aqui termina o mundo conhecido”. Isso, no século XIV. A partir da aceleração das trocas devida à descoberta das rotas marítimas, comerciantes europeus disputam entre si pedras preciosas, porcelanas, ervas aromáticas e especiarias, assim como seda e madeiras exóticas.

Entre as pedras preciosas, as principais eram rubis, esmeraldas e, sobretudo, diamantes. Os diamantes de Golconda ainda são inigualáveis pelo tamanho e pureza. O mais bonito, com 136 quilates, trazido pelos holandeses, foi comprado em 1717 pelo regente francês, o duque de Orléans, quando Luís XV ainda era criança. Era chamado de Le Regent e foi depois incrustado na espada que Napoleão portou em sua coroação. Já uma especialidade dos judeus de Amsterdã, o comércio de diamantes se tornou importante fonte de prosperidade para a Holanda.

Desde o século XVI, as naus portuguesas traziam uma porcelana com decoração “azul e branca” fabricada na época da dinastia Ming. O principal importador era a Suécia, cuja modesta companhia – pois a Suécia, assim como a Dinamarca e os Estados Unidos criaram suas próprias companhias das Índias – lucrava mais, ou pelo menos o equivalente, do que as companhias inglesa e holandesa juntas. Estima-se em 20 mi-lhões o número de peças de porcelana adquiridas pela Suécia. Elas eram vendidas a preços de tal forma baixos que chegavam a ser usadas em funções jamais imaginadas quando de sua manufatura: fazendeiros e vendedoras de leite guardavam nelas seu leite, ou davam banho em seus recém-nascidos em vasilhas feitas para acondicionar peixes. Entre as curiosidades, nota-se também: “um penico sem tampa: 150 centavos; com tampa: 2,57 coroas”. Um jogo de 221 peças custava 150 coroas.

Os colecionadores eram numerosos – Carlos I, da Inglaterra, e Jaime II fazem parte do grupo, assim como o ministro Pitt, o duque de Chaulnes, Madame de Pompadour. A favorita do rei da França possuía dois jogos completos, um azul e branco e outro multicor. A moda da época reza que se devia encomendar um jogo inteiro, que era entregue na Holanda e decorado pelos holandeses segundo o gosto do comprador. Os armadores encomendavam os seus com barcos ou cenas marítimas, naufrágios, construções de navios, portos, passagens pelo cabo da Boa Esperança.

Especiarias e ervas aromáticas eram objeto de extraordinária procura, pois eram indispensáveis à conservação das carnes, e igualmente à fabricação de ungüentos miraculosos, bálsamos, pomadas e perfumes. A pimenta, à qual se atribuía “uma malícia escondida”, era cortejada a ponto de se tornar moeda de troca na França e mais ainda na Inglaterra. Muito procurada, igualmente, era a canela, “que conforta o cérebro” e “desperta o amor lânguido e rebelde”, a noz-moscada de Banda, o cravo, indicado para a cura da hidropisia e da surdez, o anis-estrelado, a cânfora, o almíscar, a cebolinha. São incontáveis esses produtos, alguns deles curiosos, como as conchas de cauris, pequenos moluscos colhidos nas praias que serviam de moeda para a compra de escravos na Guiné.

E, à parte, apareceu o chá, que a Holanda tratou de colocar na moda no começo do século XVII. Inicialmente adotado para lutar contra o abuso do vinho, essa bebida era muito recomendada aos chefes de Estado. “Os altos e poderosos senhores, carregando o peso de cem mil preocupações que dizem respeito à confusa situação da Europa se beneficiariam tomando a infusão para conservar a saúde”, diziam os médicos. Depois, os ingleses o adotaram, bebendo-o em enormes quantidades, equipando seus veleiros especialmente para buscar a erva na China e aproveitando para trazer clandestinamente o ópio.

Nesses enormes carregamentos que desembarcavam na Europa, boa parte era composta de tecidos. A seda, o nanquim, tecidos com nomes deliciosos como gorgorão, tafetá, pequim (tipo de seda chinesa usada em forrações) liso ou listrado, cetim, bordados de ouro e de prata de Bengala estariam por um bom tempo na moda. As mulheres se cobriam com maravilhosos xales vindos da Caxemira, que, de tão finos e leves, passavam por dentro de um anel. A imperatriz Josefina tinha uma impressionante coleção deles. Os vestidos confeccionados com os tecidos vindos do Oriente eram conhecidos por durar de oito a dez anos “com honra, podendo ser lavados e desengordurados todos os anos, renovando-se como quando foram usados pela primeira vez”.

http://www2.uol.com.br/historiaviva/reportagens/companhia_das_indias_grande_negocio_em_muitas_versees_9.html

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