Das Diretas Já a Tancredo Neves

Texto muito bom sobre todo esse processo ocorrido após a Diatadura.  Segue ainda um link muito interessante falando desse momento histórico até a posse de José Sarney.

http://historia.abril.com.br/gente/tancredo-martirio-morte-434169.shtml

Maior mobilização política do país se esvai no Congresso

por Natalia Yudenitsch

“Um, dois, três, quatro, cinco, mil, queremos eleger o presidente do Brasil.” Foi com essas palavras de ordem, sob a chuva que castigava a praça da Sé, que ganhou corpo a maior manifestação política da história brasileira: a campanha pela eleição direta para presidente, as Diretas Já. Difícil saber quantos participaram do comício de 25 de janeiro de 1984. Um mar de gente, estimado em 300 mil pessoas. No palanque, estavam o presidente do PT, Luiz Inácio da Silva, o senador Fernando Henrique Cardoso e o governador Leonel Brizola, entre outros. Os artistas também compareceram – Fafá de Belém, Gilberto Gil, Alceu Valença, Chico Buarque, Regina Duarte e Fernanda Montenegro, para citar alguns. O governador Franco Montoro, idealizador do comício, não se conteve diante da multidão: “Me perguntaram se aqui estão 300 ou 400 mil pessoas. Mas a resposta é outra: aqui estão presentes as esperanças de 130 milhões de brasileiros”.

O comício de São Paulo foi decisivo porque engrossou a mobilização que depois levaria milhões de pessoas às ruas de outras capitais. A campanha tinha nascido no ano anterior, assim como a Proposta de Emenda Constitucional número 5, do deputado federal Dante de Oliveira. Pela emenda, o presidente da República seria eleito por voto direto, e não pelo Colégio Eleitoral – que reunia os congressistas e mais seis membros da bancada majoritária em cada Assembléia Legislativa. A iniciativa ganhou o apoio do grupo oposicionista que incluía o senador Teotônio Vilela e o deputado Ulysses Guimarães. O regime dava sinais de debilidade, mas daí a emplacar as Diretas Já parecia um passo grande – como ficou provado no final.

Para entender o papel da campanha é preciso olhar para o quadro geral do período. “Havia a combinação de dois fatores: uma profunda aspiração democrática, represada por anos de repressão, e a insatisfação com o regime decorrente da crise econômica deflagrada no início dos anos 80”, analisa André Singer, professor de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP).

O milagre econômico tinha ficado para trás. O eleitor já tinha escolhido seu governador em 1982. A oposição colhia votações cada vez mais expressivas. E os Estados Unidos praticavam uma política clara de favorecer a democratização na América Latina. “Eles passaram a acreditar que governos civis fortes eram mais seguros, depois do desgaste de Somoza”, explica Osvaldo Coggiola, professor de história contemporânea da USP, referindo-se à ditadura nicaragüense, que teve apoio dos EUA e desaguou em revolução socialista, em 1979. “Os Estados Unidos com certeza fariam uma intervenção caso houvesse uma tentativa de frear a abertura”, acredita Coggiola, autor de Governos Militares na América Latina.

Ao mesmo tempo, ocorria o renascimento da sociedade civil. Militantes de esquerda começaram a reunir simpatizantes em fábricas, comunidades rurais, de base e estudantis da Igreja Católica. Organizações profissionais e movimentos de moradores também se mobilizavam. As Diretas Já, portanto, cresceram no vácuo de uma série de manifestações coletivas do final dos anos 70 e início dos 80, como a campanha da Anistia e as greves do ABC.

O primeiro comício que abertamente pedia voto direto aconteceu em 27 de novembro de 1983. Foi em frente ao estádio do Pacaembu, organizado pelo PT, em um belo domingo de sol, com 15 mil participantes. Em janeiro, Curitiba realizou outro comício, com cerca de 30 mil pessoas.

O governo militar e seus aliados civis não assistiram passivamente. Os tempos haviam mudado, mas não a esse ponto. “Não havia perseguições abertas às organizações de esquerda, mas a repressão continuava, sim, por meio de todos os órgãos de segurança e inteligência, que se movimentavam com razoável independência”, relembra Osvaldo Coggiola. Em alguns comícios, os participantes eram intimidados pela Polícia Militar, que os cercava com cães.

Parte da mídia boicotava o movimento, a exemplo da Rede Globo. Daí o caráter decisivo da mobilização daquelas 300 mil pessoas em São Paulo. “A Globo foi obrigada, junto com outros setores da imprensa, a reconhecer a importância do evento durante o próprio comício”, descreve Maria Aparecida Aquino, professora de história contemporânea da USP. No Jornal Nacional daquela noite, o comício foi noticiado como uma festa pelo aniversário da cidade. A Globo sustenta que nunca escondeu o movimento e que, no meio daquela reportagem, havia referências e declarações sobre as diretas.

Depois de janeiro, o movimento só cresceu. Espalhou-se por outros estados governados pela oposição. No Nordeste, invadiu bolsões eleitorais do PDS, partido do governo. Vestiu o Brasil com amarelo, a cor das diretas. Na Candelária, no Rio, uma manifestação gigante reuniu um público estimado em 1 milhão de pessoas, em 10 de abril de 1984. Seis dias depois, no último comício antes da votação da emenda Dante de Oliveira, estima-se que estiveram no vale do Anhangabaú, em São Paulo, mais de 1 milhão de pessoas – houve quem falasse em 1,7 milhão. A imprensa, a essa altura, funcionava como amplificador da campanha. “Alguns jornais foram pioneiros do movimento, a exemplo da Folha de S.Paulo”, afirma Maria Aparecida Aquino.

Pressão do governo

Ocorre que, apesar de anos de abertura, o regime ainda tinha suas cartas na manga. As mudanças na legislação garantiram o domínio do governo no Congresso. A representação parlamentar não espelhava a distribuição da população pelo país, o que aumentava o peso de deputados de áreas menos desenvolvidas – em geral menos sensíveis aos apelos de “Diretas Já” dos grandes centros. O Executivo ainda proibiu manifestações a menos de 2 quilômetros do Congresso no dia da votação e providenciou que, na hora do voto, a Casa estivesse cercada pelo Exército.

Naquele 25 de abril de 1984, os parlamentares mostraram que as manobras do regime ainda davam resultado. “Eles não tinham coragem de votar contra as diretas e então simplesmente não votaram, ausentaram-se, refugiaram-se nos gabinetes”, conta o jornalista Ricardo Kotscho, em seu livro Explode um Novo Brasil. Após 17 horas de discussão, a emenda Dante de Oliveira teve 298 votos a favor e 65 contra. Uma maioria insuficiente para passar, pois não atingiu os dois terços necessários para mudar a Constituição. Deu a lógica – a do poder, não a das ruas.

Diante da frustração da população mobilizada, forjou-se uma saída meia-sola. Em maio, foi lançado para concorrer no Colégio Eleitoral o mineiro Tancredo Neves. Um moderado conciliador: fora ministro de Getúlio Vargas e primeiro-ministro durante o parlamentarismo dos anos 60. Passara a ditadura equilibrando-se na oposição e renovando seu mandato de deputado. Não fora cassado nem se exilara. “Para o tipo de jogo político que se colocava na época, Tancredo era o mais bem equipado”, analisa a professora Maria Aparecida Aquino. “Ele tinha grande jogo de cintura e muita malícia política. Para ele, se viessem as diretas, muito bem; se não, Tancredo espertamente viu a chance de virar o jogo a seu favor.” A estratégia do PMDB era vencer no Colégio Eleitoral, governar e implantar o voto direto para a escolha do presidente seguinte.

Para compor a chapa de Tancredo, como vice, foi escolhido ninguém menos que José Sarney, que sempre apoiara o regime militar. O maranhense ingressou na Arena assim que foi criada, em 1965, e se tornou seu presidente em 1979. Contra Tancredo, concorreu Paulo Maluf, do PDS.

Em 15 de janeiro de 1985, o Brasil parou para assistir à votação do Colégio Eleitoral. Uma lavada: 480 votos para Tancredo, 180 para Maluf. Estava eleito o primeiro presidente civil. De novo, deu a lógica – mas a lógica das “diretas já já”, bem diferente daquela que tinha levado milhões de brasileiros às ruas e tão frágil que permitiria um retrocesso ainda antes da posse.

Final melancólico

Tancredo é internado antes de assumir e dá lugar a ex-aliado da ditadura

“Na política, nunca me convidaram para um banquete. Só se lembraram de mim na hora da tempestade”, disse uma vez Tancredo Neves. Em março de 1985, tudo indicava que a mesa estava servida. Aos 75 anos, baixo, calvo e dono de uma barriga pronunciada, o mineiro de São João Del Rei se preparava para ser o primeiro civil a governar desde 1964. Ele já falava de seus planos. “Vim para promover as mudanças. Mudanças políticas, mudanças econômicas, mudanças sociais, mudanças culturais, mudanças reais, efetivas, corajosas, irreversíveis”, avisava, em seu primeiro discurso como presidente eleito. Mas, no dia 14 de março, véspera da posse, a surpresa: Tancredo é internado às pressas para tratar o que seria uma diverticulite. A doença que vinha lhe causando dores no abdômen – que, na verdade, era um tumor no intestino – impediu a sua posse e criou uma crise política. Quem vai assumir? Quem vai governar? Convoca-se outra eleição? Indireta ou direta? Fez-se um acordo em que o que menos importava era a Constituição, redigida, retalhada e emendada pelos governos militares nos anos anteriores. E a Presidência caiu nas mãos de José Sarney, aliado da ditadura até recentemente, que tomou posse no lugar de Tancredo. Durante a internação e as sucessivas operações por que o presidente eleito passou, o país prendeu a respiração. Para manter as esperanças, foi divulgada uma foto de Tancredo sentado ao lado de seus médicos – mais tarde apontada como uma armação, pois uma enfermeira que não aparece na foto estaria naquele momento segurando soro com medicamentos para o paciente. Foi mais de um mês de agonia, até sua morte ser anunciada, às 22h30 do dia 21 de abril de 1985. Sarney foi então confirmado no cargo. A transição política começava a ser completada do ponto de vista formal, mas ainda haveria muito a fazer para consolidar a democracia. “Assim como o regime militar começou a cair bem antes do seu fim oficial, também continuou depois de fechada a porta, nos hábitos e nas organizações”, explica Maria Aparecida Aquino, professora de história contemporânea da USP. A primeira eleição direta para presidente só ocorreria em 1989, quando Fernando Collor foi eleito, derrotando Luiz Inácio Lula da Silva. Mas isso é outra história…

http://historia.abril.com.br/politica/diretas-ja-ja-434199.shtml

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