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Os Neopopulistas

Segue reportagem de um jornalista da revista quem, publicado em fevereiro de 2009. Vale a pena ler e criticar. Será que voces concordam com tudo o que ele fala?

Os neopopulistas

O avanço da esquerda nos governos da América Latina fez ressurgir uma perspectiva sombria: o continente está sendo engolfado pelo populismo?

Guilherme Evelin

Primeiro, parecia uma exceção. A eleição de Hugo Chávez para a Presidência da Venezuela, há oito anos, foi interpretada como um ponto fora da curva latino-americana. Naquela altura, considerava-se que o continente inteiro estava, senão livre, pelo menos muito bem encaminhado para acabar com a tradição de ser governado por líderes populistas. E então veio, eleição após eleição, uma leva de governantes de esquerda – incluindo o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, o argentino Néstor Kirchner, o uruguaio Tabaré Vázquez, o boliviano Evo Morales e até a chilena Michelle Bachelet, empossada há dois meses.

Se Antonio Lopez Obrador ganhar a eleição no México em julho, quase todos os principais países abaixo do Rio Grande, que demarca a fronteira entre os Estados Unidos e o México, estarão sob o comando de presidentes esquerdistas com forte apelo entre os mais pobres. Essa reviravolta política levantou a questão: a América Latina está novamente engolfada por uma onda de populismo?

Em artigo publicado na última edição da revista Foreign Affairs, o ex-chanceler mexicano Jorge Castañeda, professor de Política e Estudos Latino-Americanos na Universidade de Nova York, aponta Chávez como herdeiro da mesma linhagem populista de Getúlio Vargas e de seu homólogo argentino, Juan Domingo Perón. “Chávez não é Fidel Castro. Ele é um Perón com petróleo”, diz Castañeda. No mesmo balaio, segundo Castañeda, estão o presidente da Argentina, Néstor Kirchner, “um legítimo peronista e orgulhoso disso”, e o da Bolívia, Evo Morales, “que não é um Che indígena, mas um habilidoso e irresponsável populista”.

A volta do estigma do populismo já representa, em si mesma, um risco. Ela pode diminuir a disposição de investidores em trazer capital para a região. Mas o pior é se a percepção estiver correta: nesse caso, o que está em questão é um retrocesso no fortalecimento das instituições que vem ocorrendo desde a democratização da América Latina, na década de 80.

Para avaliar se o continente está mesmo sob o risco de voltar aos tempos de líderes desse tipo é necessário entender o que é o populismo. Historicamente, ele se caracteriza pelo personalismo, pelo autoritarismo, pela difusão da crença de um herói salvador e por um estridente nacionalismo – práticas políticas que, no passado, ajudaram a aprofundar os problemas de uma região historicamente marcada pelas grandes desigualdades sociais. Embora seja, em geral, associado à esquerda, o populismo não tem nada a ver com ideologia. No poder, Getúlio e Perón perseguiram os comunistas – e o argentino viveu no exílio sob a guarda da ditadura de Franco na Espanha.

O populismo não é uma invenção latino-americana. No resto do mundo, costuma-se pregar a um político a pecha de “populista” quando ele procura conquistar a popularidade, apelando a promessas fáceis ou demagógicas – quase sempre dirigidas a eleitores pertencentes aos estratos sociais mais pobres. A arma principal do populista costuma ser a emoção, e não a razão. Os EUA, no final do século XIX, tiveram um Partido do Povo, com raízes rurais, que ganhou influência política com campanhas contra o controle da economia por cartéis urbanos. Jean-Marie Le Pen, o líder da extrema direita francesa, é um exemplo de populista europeu, que conquista votos entre agricultores, desempregados e pequenos empresários com uma retórica contra as grandes corporações, estrangeiros e a União Européia.

Mas foi na América Latina que o populismo virou um fenômeno político central nos últimos 70 anos. Entre os anos 30 e 60, como conseqüência da industrialização, do crescimento das cidades e do surgimento de um proletariado urbano, lideranças populistas emergiram em vários países da região em substituição às oligarquias rurais que antes controlavam o poder. Estabelecendo contato direto com essas novas massas urbanas, sem a intermediação de partidos, esses líderes distribuíram benesses aos trabalhadores, ao mesmo tempo que construíam uma aliança com a burguesia industrial e perseguiam uma política nacionalista e desenvolvimentista, com substituição de importações, a imposição de restrições ao capital estrangeiro e a estatização.

Em muitos casos, esses líderes passaram a ser associados a períodos de grande crescimento econômico de seus países e a se beneficiar de aura de fundadores da nação. É o caso de Getúlio Vargas, no Brasil, que ficou conhecido como “o pai dos pobres” por ter introduzido a legislação trabalhista no país. A contrapartida do lado de benfeitores da classe trabalhadora, porém, era o exercício autoritário do poder, em que líder, partido, governo e Estado se confundiam numa coisa só; o corporativismo nas relações sociais; e a geração de capitalistas viciados em generosos subsídios estatais. Na gestão das finanças públicas, prevalecia a prodigalidade de gastos. Em caso de necessidade, imprimia-se dinheiro – sem preocupação com inflação ou déficits.

O que diferencia os populistas do passado dos neopopulistas do presente, além de um contexto internacional completamente diferente e do enraizamento dos processos de eleições diretas na América Latina, é a base de sustentação social. “A burguesia se internacionalizou e abandonou o barco populista”, diz o historiador Boris Fausto, um dos maiores especialistas no estudo do getulismo. “O neopopulismo não se assenta sobre a classe trabalhadora organizada, que não tem a mesma importância de outros tempos, mas, sobretudo, em massas marginalizadas.”

O que dizer do presidente Lula? Castañeda e outros analistas internacionais, impressionados com a ortodoxia da política econômica seguida pelo Brasil nos últimos três anos, incluem Lula no cesto da esquerda latino-americana moderna. Nada mais antipopulista que superávits primários de 4%. O Bolsa-Família, que tem a chancela do Banco Mundial, nasceu em formato mais reduzido no governo FHC. É um clássico programa de compensação social, e poderia ser qualificado de ä neoliberal por um esquerdista mais empedernido. Pragmaticamente, Lula cultiva boas relações com os EUA. Ao final da última Cúpula das Américas, no ano passado, na Argentina, enquanto Chávez se juntava ao ex-craque Maradona e entoava slogans antiimperialistas para uma multidão, Lula recebia na Granja do Torto o presidente americano, George W. Bush, para um amistoso churrasco – símbolo também da singularidade brasileira em meio a hispânicos sempre muito mais inflamados.

Lula, por outro lado, ostenta vários traços de um líder latino-americano à moda antiga, principalmente em sua retórica, o que permite qualificá-lo como “moderadamente populista”. A popularidade de seu governo ancora-se em grande parte em sua liderança carismática. Ele cultiva com carinho a imagem de um novo pai dos pobres, como um Getúlio redivivo (leia a reportagem à pág. 32). Até para se colocar em clara oposição aos tucanos e a Fernando Henrique Cardoso, que prometeu sepultar a era Vargas, Lula também não perde a oportunidade de se associar ao discurso nacionalista e estatizante típico do getulismo – embora o PT, em suas origens, tenha surgido como uma voz crítica ao peleguismo e à intervenção estatal nos sindicatos, uma das principais heranças do populismo varguista.

“Lula usa em certas ocasiões formas de identificação populista”, diz o uruguaio Francisco Panizza, professor de Política Latino-Americana na London School of Economics. “Quando Lula fala de conspiração das elites ou tenta fazer sua identidade de operário prevalecer sobre a de integrante da elite política para se identificar diretamente com o povo, esses são elementos populistas em seu discurso político.” O estilo do presidente também é personalista – tanto é que nenhuma liderança nacional emergiu a sua sombra no PT. E resvala, às vezes, para o autoritarismo, como mostra a tentativa frustrada de expulsar do Brasil o jornalista americano Larry Rohter, correspondente do New York Times, em 2004.

O populismo renasceu na América Latina por causa das deformações das democracias implantadas na região depois do ciclo de ditaduras militares. “Quando surgem líderes populistas, isso quer dizer que setores importantes da população não se sentem representados pelo sistema político, ainda que ele seja formalmente democrático”, diz Panizza, autor do livro Populismo: Espelho da Democracia. O fato é que as reformas liberais nos anos 90, embora tenham modernizado as economias latino-americanas, falharam em incorporar a massa de pobres, desempregados e trabalhadores informais colocados às margens da globalização.

“O traço comum a todos os presidentes de esquerda na América Latina é que eles foram eleitos numa reação ao fato de que as reformas falharam em cumprir suas promessas”, diz Francisco Weffort, ex-secretário-geral do PT, ex-ministro da Cultura do governo FHC e autor do livro Populismo na Política Brasileira. Uma diferença importante é que lideranças como Chávez, Morales e Olanta Humala, candidato no Peru, emergiram em sistemas políticos frágeis ou em colapso, enquanto Bachelet, Vázquez e Lula presidem de países com instituições políticas fortes. Mas nenhum deles está imune ao risco que a tentação populista representa.


http://revistaquem.globo.com/Revista/Quem/0,,EMI53969-9531,00-OS+NEOPOPULISTAS.html

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